Qual é a história real por trás de Monstro: A História de Lizzie Borden?

Atenção: o texto contém spoilers de Monstro: A História de Lizzie Borden.
A história de Lizzie Borden atravessou mais de um século cercada por assassinatos, suspeitas e perguntas que nunca foram completamente respondidas. Em 1892, seu pai e sua madrasta foram encontrados mortos dentro da casa da família em Fall River, Massachusetts, nos Estados Unidos.
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Lizzie acabou acusada dos dois crimes e enfrentou um dos julgamentos mais comentados da época. Apesar de ter sido absolvida, a dúvida sobre sua possível participação nos assassinatos nunca desapareceu.
É justamente essa história que serve de base para Monstro: A História de Lizzie Borden, produção da Netflix criada dentro da antologia desenvolvida por Ryan Murphy e Ian Brennan.
A série aproveita acontecimentos documentados do caso, mas também preenche várias lacunas históricas com situações ficcionais. Por isso, quem termina os episódios pode ficar com uma dúvida inevitável: afinal, o que realmente aconteceu com Lizzie Borden?
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Quem foi Lizzie Borden na vida real?
Lizzie Andrew Borden nasceu em 19 de julho de 1860, em Fall River, no estado de Massachusetts. Ela era filha de Andrew Jackson Borden e Sarah Anthony Morse Borden.
Sua mãe morreu quando Lizzie ainda era criança. Posteriormente, Andrew se casou com Abby Durfee Gray, que passou a ser madrasta de Lizzie e de sua irmã mais velha, Emma.
A família Borden tinha uma condição financeira confortável. Andrew acumulou patrimônio trabalhando em diferentes negócios e investimentos, mas era conhecido por manter hábitos relativamente econômicos apesar da fortuna.
Esse contraste é importante para compreender algumas das tensões familiares relatadas posteriormente. Lizzie e Emma teriam demonstrado insatisfação com algumas decisões financeiras do pai, especialmente aquelas relacionadas aos parentes de Abby.
A convivência dentro da residência dos Borden também teria se tornado progressivamente complicada.
Nada disso, entretanto, comprova que Lizzie tenha planejado ou cometido qualquer assassinato.
O que transformaria seu nome em uma das figuras mais famosas da história criminal norte-americana aconteceu em agosto de 1892.

O que aconteceu na casa dos Borden em 1892?
Na manhã de 4 de agosto de 1892, Abby Borden foi assassinada dentro da residência da família.
Ela recebeu diversos golpes enquanto estava em um quarto localizado no andar superior da casa.
Algum tempo depois, Andrew Borden retornou para casa e acabou descansando em um sofá. Ele também foi brutalmente atacado.
Seu corpo foi encontrado na sala.
As características extremamente violentas dos dois assassinatos rapidamente chamaram a atenção das autoridades e da imprensa.
A ausência de sinais claros de invasão também levantou suspeitas sobre pessoas que estavam dentro ou próximas da residência naquele dia.
Entre elas estava Lizzie.
Outra pessoa presente na casa era Bridget Sullivan, empregada doméstica da família, frequentemente chamada de Maggie.
As declarações das pessoas que estavam no imóvel e a sequência de acontecimentos daquela manhã se tornariam elementos essenciais durante a investigação.
Lizzie Borden realmente matou o pai e a madrasta?
Essa é justamente a pergunta que permanece sem resposta definitiva mais de 130 anos depois.
Lizzie Borden foi formalmente acusada dos assassinatos de Andrew e Abby Borden, mas acabou absolvida no julgamento realizado em 1893.
Portanto, juridicamente, ela não foi considerada culpada.
Ao mesmo tempo, circunstâncias do caso alimentaram suspeitas durante décadas.
O comportamento de Lizzie após os assassinatos, depoimentos considerados inconsistentes e determinados acontecimentos anteriores e posteriores às mortes foram utilizados pela acusação para construir seu caso.
Mesmo assim, as provas não foram suficientes para convencer os jurados de sua culpa.
Também nunca surgiu uma explicação alternativa capaz de encerrar definitivamente o mistério.
Por esse motivo, diferentes teorias sobre o crime continuam sendo discutidas por historiadores e pesquisadores.
Quantos golpes Andrew e Abby Borden receberam?
Uma das maiores distorções envolvendo o caso surgiu graças a uma famosa rima popular norte-americana sobre Lizzie Borden.
A cantiga afirma que Lizzie teria atingido sua madrasta 40 vezes e dado outros 41 golpes no pai.
Os números não correspondem aos registros históricos.
Abby Borden sofreu aproximadamente 19 golpes, enquanto Andrew recebeu cerca de 11.
Mesmo sendo números menores do que aqueles popularizados pela rima, a brutalidade dos assassinatos permanece evidente.
Com o passar das décadas, a cantiga ajudou a transformar Lizzie em uma personagem praticamente folclórica da cultura norte-americana.
Essa imagem acabou se tornando muito mais conhecida do que os próprios detalhes documentados do processo.
Por que Lizzie Borden virou a principal suspeita?
Vários elementos chamaram a atenção dos investigadores.
Lizzie estava na residência no período dos assassinatos e forneceu declarações sobre suas atividades naquela manhã.
Algumas dessas informações foram posteriormente consideradas confusas ou contraditórias.
Além disso, existiam relatos sobre dificuldades na relação entre Lizzie, seu pai e sua madrasta.
Outro episódio frequentemente lembrado ocorreu pouco antes dos assassinatos.
Lizzie teria tentado comprar ácido prússico, substância altamente tóxica conhecida atualmente como cianeto de hidrogênio.
O farmacêutico recusou a venda.
A situação despertou suspeitas durante a investigação, embora a tentativa de compra não tenha servido como prova conclusiva de um plano para assassinar a família.
A série da Netflix utiliza esse detalhe histórico e cria sua própria interpretação dramática para explicar o episódio.
Lizzie Borden queimou um vestido após os assassinatos?
Esse é outro ponto importante do caso.
Dias depois das mortes, Lizzie foi vista queimando um vestido.
Ela teria explicado que a peça estava manchada de tinta e não poderia mais ser utilizada.
Para a acusação, porém, a destruição da roupa levantava uma possibilidade muito mais comprometedora: o vestido poderia conter sangue ou alguma evidência relacionada aos assassinatos.
Não houve prova definitiva de que a roupa fosse aquela utilizada durante os crimes.
Mesmo assim, o episódio passou a integrar praticamente todas as reconstruções modernas do caso.
Em Monstro: A História de Lizzie Borden, elementos como esse são utilizados de maneira mais conclusiva porque a produção precisa construir uma narrativa dramática.
Na realidade, várias dessas questões permaneceram sem solução.
Bridget “Maggie” Sullivan ajudou Lizzie Borden?
A série utiliza Bridget Sullivan como uma figura importante na trajetória de Lizzie e estabelece uma relação muito mais profunda entre as duas.
Historicamente, Bridget era empregada da família Borden e estava na propriedade no dia dos assassinatos.
Ela prestou depoimento sobre o que estava fazendo durante parte daquela manhã e se tornou uma testemunha fundamental na investigação.
Entretanto, não existe comprovação histórica de que Bridget tenha ajudado Lizzie a assassinar Andrew e Abby.
Essa participação deve ser entendida como uma escolha narrativa de Monstro: A História de Lizzie Borden.
A produção parte de personagens reais e acontecimentos conhecidos, mas cria relações, motivações e situações para preencher os espaços que os registros históricos não conseguem explicar.
Lizzie Borden foi absolvida?
Sim.
O julgamento começou em junho de 1893 e recebeu enorme atenção da imprensa.
Lizzie enfrentava acusações extremamente graves, mas sua defesa conseguiu criar dúvidas suficientes sobre a força das evidências apresentadas pela promotoria.
Alguns elementos também trabalharam em benefício da acusada.
Na sociedade norte-americana do final do século XIX, havia forte resistência à ideia de que uma mulher de classe social respeitável pudesse cometer crimes tão violentos.
A aparência, o comportamento e a posição social de Lizzie provavelmente influenciaram a maneira como parte do público e do júri interpretava o caso.
Em 20 de junho de 1893, ela foi considerada inocente.
O julgamento acabou, mas a suspeita pública permaneceu.
Outras pessoas chegaram a ser suspeitas?
Sim.
Ao longo das investigações e das inúmeras teorias surgidas posteriormente, outros nomes foram apontados como possíveis responsáveis pelos assassinatos.
Entre eles estava John Morse, irmão da mãe biológica de Lizzie.
Ele estava visitando a família e chegou a ser questionado, mas apresentou um álibi detalhado para o período das mortes.
Também surgiram especulações envolvendo possíveis inimigos de Andrew Borden, pessoas ligadas aos seus negócios e até teorias sobre familiares desconhecidos.
Nenhuma dessas hipóteses conseguiu produzir uma solução definitiva.
Emma Borden, irmã de Lizzie, também se tornou personagem frequente nas especulações sobre o caso, embora não estivesse na residência quando os assassinatos ocorreram.
Bertha Manchester foi assassinada por Lizzie Borden?
Não existe evidência histórica de que Lizzie tenha assassinado Bertha Manchester.
A série utiliza essa morte de maneira diferente da cronologia real.
Bertha Manchester realmente existiu e foi assassinada em Fall River, mas sua morte ocorreu depois dos assassinatos de Andrew e Abby Borden.
Ela foi morta em maio de 1893, pouco antes do início do julgamento de Lizzie.
O caso acabou envolvendo Jose Correa de Mello, um imigrante português condenado pelo crime.
Portanto, a produção altera acontecimentos reais para incorporar a morte de Bertha à construção de sua protagonista.
Esse é um dos exemplos mais claros de como Monstro: A História de Lizzie Borden mistura registros históricos e dramatização.
Nance O’Neil realmente conheceu Lizzie Borden?
Sim, mas existe uma diferença importante em relação à série.
Nance O’Neil foi uma atriz conhecida no início do século XX e realmente manteve contato com Lizzie.
As duas, entretanto, só se aproximaram muitos anos depois do julgamento.
Os registros indicam que a amizade começou por volta de 1904, mais de uma década depois da absolvição de Lizzie.
Por isso, Nance não poderia ter ajudado Lizzie a preparar sua imagem ou comportamento durante o julgamento de 1893, como sugere a narrativa dramatizada.
A série modifica a cronologia para utilizar a atriz como uma influência sobre a maneira como Lizzie se apresenta diante do tribunal.
Historicamente, esse trabalho de construção da imagem da acusada teria sido muito mais relacionado à estratégia adotada por seus advogados.
Lizzie Borden teve um relacionamento com Nance O’Neil?
Não existe comprovação de que as duas tenham vivido um relacionamento amoroso.
A proximidade entre Lizzie e Nance gerou rumores na época e continuou alimentando especulações posteriormente.
Também existem interpretações sobre a sexualidade de Lizzie baseadas em suas amizades e no fato de nunca ter se casado.
Essas hipóteses, no entanto, não podem ser tratadas como fatos documentados.
O que se sabe é que Nance frequentou a casa de Lizzie e integrou seu círculo social.
A relação entre elas teria contribuído para aumentar o afastamento entre Lizzie e Emma.
As irmãs, que moraram juntas durante muitos anos após o julgamento, acabaram seguindo caminhos separados.
O que aconteceu com Lizzie depois do julgamento?
Após ser absolvida, Lizzie permaneceu em Fall River.
Ela e Emma utilizaram a herança recebida após a morte do pai para comprar uma residência maior em uma região mais valorizada da cidade.
A propriedade ficou conhecida como Maplecroft.
Lizzie também passou a utilizar o nome Lizbeth.
Embora tivesse vencido o processo judicial, ela jamais conseguiu se livrar completamente da associação com os assassinatos.
Parte da sociedade de Fall River continuou evitando sua presença.
A fama decorrente do julgamento tornou praticamente impossível recuperar uma vida comum.
Lizzie passou a conviver com pessoas ligadas ao teatro e a outros círculos sociais, mas sua relação com Emma acabou se deteriorando.
As duas se separaram definitivamente em 1905.
Lizzie permaneceu em Fall River até morrer em 1927, aos 66 anos.
Emma morreu poucos dias depois.
Elizabeth Báthory aparece na história real de Lizzie?
A conexão apresentada pela série deve ser entendida principalmente como um recurso narrativo.
Elizabeth Báthory foi uma nobre húngara que viveu entre os séculos XVI e XVII e ficou associada a relatos de assassinatos de jovens mulheres.
Com o passar dos séculos, histórias sobre Báthory foram ampliadas e transformadas em lendas.
Uma das mais famosas afirma que ela se banhava no sangue das vítimas para preservar a juventude.
Não existe comprovação histórica confiável dessa história.
Em Monstro: A História de Lizzie Borden, referências a Báthory ajudam a construir uma discussão mais ampla sobre mulheres associadas à violência e posteriormente transformadas em figuras quase mitológicas.
Isso não significa que exista uma ligação histórica direta entre ela e Lizzie.
Qual é a relação entre Aileen Wuornos e Lizzie Borden?
Aileen Wuornos foi uma assassina em série norte-americana responsável pela morte de vários homens entre 1989 e 1990.
Ela foi condenada à morte e executada na Flórida em 2002.
Na produção da Netflix, a trajetória de Aileen é utilizada para estabelecer uma conexão temática com Lizzie e discutir diferentes representações de mulheres acusadas ou condenadas por crimes violentos.
Não existe, porém, evidência histórica de que Wuornos tenha sido especialmente fascinada pelo caso Borden.
A ligação criada pela série funciona principalmente como uma escolha narrativa dentro do universo de Monstro.
A casa onde ocorreram os assassinatos ainda existe?
Sim.
A residência localizada em Fall River onde Andrew e Abby Borden foram mortos continua existindo.
Com o passar dos anos, o imóvel acabou transformado em uma atração relacionada ao famoso caso criminal.
A casa também funcionou como hospedagem e se tornou destino de turistas interessados na história de Lizzie, crimes reais e relatos paranormais.
O local preserva elementos associados ao período dos assassinatos e tornou-se parte importante do turismo ligado ao caso.
Essa transformação demonstra como uma tragédia ocorrida em 1892 acabou se tornando um dos crimes mais conhecidos da cultura popular norte-americana.
O que é verdade e o que é ficção em Monstro: A História de Lizzie Borden?
A Netflix utiliza vários acontecimentos reais como estrutura básica da temporada.
Os assassinatos de Andrew e Abby, a investigação contra Lizzie, a tentativa de comprar uma substância tóxica, o vestido queimado, o julgamento e a absolvição fazem parte da história documentada.
Personagens como Bridget Sullivan, Emma Borden, John Morse e Nance O’Neil também existiram.
Por outro lado, a produção cria diálogos, motivações, relacionamentos e crimes para desenvolver sua interpretação da personagem.
A participação de Maggie nos assassinatos, a presença de Nance durante o julgamento e determinadas conexões com outras mulheres associadas a crimes violentos são exemplos de elementos dramatizados.
Isso significa que Monstro: A História de Lizzie Borden não deve ser encarada como uma reconstrução documental.
A série apresenta uma possível interpretação para um mistério que a Justiça nunca conseguiu resolver definitivamente.

Afinal, Lizzie Borden era culpada?
Provavelmente nunca haverá uma resposta capaz de encerrar completamente a discussão.
Existem circunstâncias que sustentam suspeitas contra Lizzie, mas as provas apresentadas em 1893 não foram suficientes para condená-la.
Também existem questões difíceis de explicar caso ela realmente tenha cometido os dois assassinatos, incluindo a ausência de uma arma conclusivamente ligada aos crimes e a dificuldade de reconstruir cada movimento daquela manhã.
A absolvição não provou necessariamente que outra pessoa fosse responsável. Apenas significou que os jurados não consideraram que a acusação havia demonstrado sua culpa além de uma dúvida razoável.
Essa incerteza é justamente uma das razões pelas quais o caso continua despertando curiosidade mais de um século depois.
Lizzie Borden deixou de ser apenas uma mulher acusada de assassinar o pai e a madrasta. Ela se tornou parte da cultura popular, inspirando livros, filmes, documentários, músicas e séries.
Agora, Monstro: A História de Lizzie Borden apresenta uma nova interpretação desse mistério.
Entre fatos documentados e escolhas ficcionais, a produção volta à pergunta que acompanha o caso desde 1892: o que realmente aconteceu dentro da casa dos Borden naquela manhã?
Imagem: Reprodução Netflix




