The Early Spring quebra um tabu dos romances chineses e muda o jogo na Netflix

Quem começa The Early Spring esperando mais um romance de escritório construído lentamente pode perceber uma diferença logo nos primeiros episódios. O C-drama protagonizado por Jing Boran e Sun Qian acelera uma etapa que muitas produções chinesas costumam guardar para bem mais tarde: a intimidade entre o casal principal.
A mudança não significa apenas colocar beijos ou momentos românticos mais cedo na história. A produção aposta em uma relação assumidamente adulta, marcada por atração, conflitos profissionais, diferenças de personalidade e decisões que deixam consequências durante vários anos.
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Nos bastidores, The Early Spring também chamou atenção por uma escolha pouco comum na televisão da China continental. A produção teria sido uma das primeiras do país, e é apontada por diferentes veículos como a primeira série de TV chinesa continental, a utilizar oficialmente uma profissional responsável pela coordenação das cenas de intimidade.
Essa combinação ajuda a explicar por que o drama rapidamente começou a gerar comentários entre quem acompanha produções asiáticas. Mais do que um romance entre chefe e funcionária, a série tenta apresentar dois adultos entrando em uma relação complicada sem seguir exatamente o ritmo tradicional das histórias românticas do gênero.
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Que tradição The Early Spring resolveu quebrar?
Não existe uma regra oficial determinando em qual episódio protagonistas de um C-drama podem se beijar ou iniciar um relacionamento. Quando se fala em uma “tradição de 20 anos”, portanto, o termo descreve uma tendência narrativa, e não uma norma formal.
Romances televisivos chineses ficaram conhecidos por desenvolver relacionamentos de maneira extremamente gradual. Em muitas histórias, boa parte dos episódios é dedicada a olhares, mal-entendidos, aproximações discretas e sentimentos que demoram a ser verbalizados.
O primeiro beijo frequentemente funciona como uma recompensa depois de uma longa construção romântica. Há séries em que o casal principal passa dezenas de episódios evitando admitir o que sente.
The Early Spring escolhe outro caminho.
A atração entre Shang Zhitao e Luan Nian fica evidente cedo, e a produção não trata o desejo dos personagens como algo que precisa permanecer escondido do espectador até os capítulos finais.
Críticas internacionais publicadas após a estreia destacaram justamente esse ritmo mais acelerado, apontando que a série não prolonga artificialmente a fase em que os protagonistas fingem não sentir atração um pelo outro.
Isso não quer dizer que o romance seja simples. Pelo contrário.
A série troca parte da tradicional pergunta “quando eles ficarão juntos?” por outra questão potencialmente mais interessante: “o que acontece depois que duas pessoas complicadas começam um relacionamento?”.
The Early Spring aposta em um romance mais adulto
O diferencial de The Early Spring não está apenas na quantidade de cenas românticas.
A relação entre os protagonistas acompanha mudanças profissionais, decisões impulsivas, amadurecimento e conflitos que se acumulam ao longo do tempo.
A própria Netflix apresenta a produção como a história de uma jovem funcionária e seu talentoso chefe tentando lidar com um ambiente profissional acelerado enquanto mantêm um relacionamento secreto capaz de colocar muita coisa em risco.
A proposta já revela uma diferença importante.
O relacionamento não representa necessariamente o final feliz da história. Ele é uma das forças que movimentam o enredo.
Shang Zhitao precisa descobrir quem deseja ser profissionalmente enquanto tenta entender o espaço ocupado por Luan Nian em sua vida. Ele, por sua vez, é obrigado a lidar com uma relação na qual sua personalidade difícil deixa de ser apenas uma característica atraente do “chefe frio” e começa a trazer consequências.
É justamente aí que The Early Spring se distancia de alguns clichês bastante conhecidos.

Quem são Shang Zhitao e Luan Nian?
Shang Zhitao, interpretada por Sun Qian, chega ao mercado de trabalho ainda tentando encontrar seu espaço.
Recém-formada e vinda de uma realidade distante do ambiente competitivo que encontra em Pequim, ela consegue uma oportunidade em uma grande agência de publicidade.
Sua entrada nesse universo coloca a jovem diante de Luan Nian, vivido por Jing Boran.
Ele é talentoso, exigente e conhecido pela personalidade difícil. A combinação imediatamente cria uma dinâmica familiar para quem acompanha romances ambientados em empresas: o chefe poderoso e a funcionária que precisa provar seu valor.
Mas The Early Spring não pretende deixar os dois indefinidamente presos nessa posição.
O relacionamento muda enquanto Shang Zhitao também muda.
Segundo Jing Boran, uma parte fundamental da história está justamente na transformação provocada pelos anos que os personagens passam juntos. O ator descreveu o relacionamento como uma jornada em que ambos precisam mudar aspectos importantes de suas próprias personalidades.
Essa evolução também evita que Shang Zhitao exista apenas como interesse amoroso do protagonista masculino.
O crescimento profissional e emocional da personagem possui peso próprio dentro da narrativa.
Uma relação que atravessa vários anos
Outro elemento importante é a passagem do tempo.
A história acompanha uma relação que se desenvolve durante aproximadamente seis anos, período no qual Shang Zhitao e Luan Nian passam por aproximações, conflitos e mudanças pessoais.
Isso permite que a série explore algo que romances mais idealizados nem sempre mostram: duas pessoas podem se amar e, ainda assim, não estarem preparadas para construir uma vida juntas naquele momento.
Em determinado ponto, os caminhos dos protagonistas se separam.
O reencontro posterior transforma parte da narrativa em uma história de segunda chance, recurso que a própria Netflix utiliza entre as características associadas à produção.
A diferença é que eles já não são exatamente as mesmas pessoas.
Por isso, acompanhar The Early Spring significa observar não apenas quando Shang Zhitao e Luan Nian se apaixonam, mas como o relacionamento influencia quem eles se tornam.
The Early Spring também inovou nos bastidores
Talvez a maior ruptura promovida pela produção tenha acontecido longe das câmeras.
The Early Spring foi apontada como a primeira produção televisiva da China continental a contratar oficialmente uma coordenadora de intimidade para acompanhar suas cenas românticas.
A responsável pelo trabalho foi a atriz taiwanesa Tsai Jia-yin, que já havia exercido função semelhante na produção taiwanesa Let’s Talk About CHU.
A profissão ganhou espaço principalmente em produções ocidentais nos últimos anos, mas sua função ainda costuma ser mal interpretada.
Um coordenador de intimidade não é contratado necessariamente para deixar uma cena mais explícita.
O objetivo principal é organizar como o contato físico será executado.
O que faz uma coordenadora de intimidade?
O trabalho pode ser comparado, em alguns aspectos, ao realizado por um profissional responsável pela coreografia de uma luta.
Movimentos são planejados previamente.
Os envolvidos sabem onde haverá contato físico, como determinada ação acontecerá e quais são os limites estabelecidos pelos atores.
Em The Early Spring, Tsai Jia-yin também teria participado da construção estética dessas sequências, ajudando a transformar o momento vivido pelos personagens em movimentos compatíveis com aquela etapa da relação.
Jing Boran afirmou que a presença da profissional ajudou os protagonistas a ficarem mais tranquilos durante as gravações. Sun Qian também destacou o apoio psicológico proporcionado pelo acompanhamento.
Portanto, a novidade não é simplesmente “ter cenas mais quentes”.
É existir alguém especificamente preparado para organizar essas cenas.
As cenas íntimas ajudam a contar a história
Esse detalhe é importante porque explica por que determinadas interações entre Shang Zhitao e Luan Nian parecem diferentes ao longo da série.
O contato físico acompanha o estágio do relacionamento.
Uma aproximação do início não precisa transmitir o mesmo sentimento de um encontro entre personagens que já carregam anos de história, discussões e mágoas.
Reportagens sobre os bastidores indicam que a coordenação analisou justamente elementos como distância entre os atores, posicionamento das mãos e pequenos gestos destinados a transmitir diferentes níveis de intimidade.
É uma abordagem mais técnica do que simplesmente pedir para os protagonistas “parecerem apaixonados” diante da câmera.
E pode ser justamente esse cuidado que contribui para a química que chamou atenção do público desde a estreia.

Por que The Early Spring está sendo comparada a Cinquenta Tons de Cinza?
Outro comentário que começou a circular em torno do C-drama envolve uma comparação bastante curiosa.
Alguns espectadores enxergaram semelhanças entre a dinâmica inicial de The Early Spring e Cinquenta Tons de Cinza.
Os ingredientes básicos ajudam a entender a associação.
Existe um homem mais poderoso profissionalmente, confiante e exigente. Do outro lado aparece uma mulher mais jovem entrando em um ambiente no qual ele possui muito mais experiência e influência.
Some a isso a tensão sexual evidente e o paralelo aparece rapidamente.
Mas tratar The Early Spring como uma versão chinesa de Cinquenta Tons de Cinza pode criar uma expectativa bastante equivocada.
A comparação funciona apenas até certo ponto
A série chinesa tem prioridades diferentes.
O desenvolvimento profissional de Shang Zhitao ocupa parte relevante da trama, enquanto a história acompanha também as transformações vividas pelos personagens ao longo de vários anos.
Até reportagens que fizeram a comparação ressaltaram que o romance está inserido em uma história maior sobre independência, ambição e amadurecimento.
Também não se trata de uma produção concebida para competir em nível de conteúdo explícito com a obra de E. L. James.
A China mantém regras rígidas relacionadas ao conteúdo exibido em produções audiovisuais, o que naturalmente estabelece limites bastante diferentes.
O que chama atenção em The Early Spring é justamente quanto a série consegue sugerir e construir dentro desses limites.
The Early Spring é baseada em um romance
A história não nasceu diretamente para a televisão.
The Early Spring, cujo título original é 早春晴朗, adapta uma web novel de mesmo nome escrita por Gu Niang Bie Ku e publicada originalmente na plataforma chinesa Jinjiang Literature City.
A Netflix também classifica oficialmente a série como uma produção baseada em uma web novel.
Adaptações chinesas frequentemente precisam modificar determinados elementos dos romances originais para se adequar às regras da televisão.
Por isso, leitores da obra podem perceber mudanças na personalidade de personagens, na intensidade de determinados conflitos e principalmente na representação das relações amorosas.
Ainda assim, a essência permanece concentrada na evolução de Shang Zhitao.
Seu crescimento é essencial para entender por que o relacionamento assume formas tão diferentes conforme os anos avançam.
Quantos episódios tem The Early Spring?
A primeira temporada de The Early Spring possui 24 episódios.
A produção estreou em 26 de agosto de 2026 e começou a disponibilizar capítulos progressivamente nos serviços responsáveis por sua distribuição.
No Brasil, o C-drama começou a aparecer na Netflix a partir de 26 de agosto, com episódios sendo adicionados de maneira gradual. Bases de acompanhamento do catálogo também registraram a disponibilização brasileira da produção nessa data.
Como ocorre com diversos dramas asiáticos exibidos simultaneamente em diferentes mercados, o número de capítulos disponíveis pode variar durante o período de lançamento.
Vale a pena assistir The Early Spring?
Para quem gosta de romances de escritório, a resposta provavelmente será positiva, principalmente porque The Early Spring utiliza elementos conhecidos do gênero sem seguir exatamente o caminho mais previsível.
O chefe frio continua lá.
A jovem funcionária começando a carreira também.
Existe diferença de experiência, conflito profissional, atração e relacionamento secreto.
Mas a história não depende apenas de fazer o espectador esperar dezenas de episódios pelo primeiro momento romântico importante.
O verdadeiro conflito começa quando os sentimentos deixam de ser apenas uma possibilidade.
E essa talvez seja a mudança mais interessante promovida por The Early Spring.
Em vez de apresentar o relacionamento como prêmio final depois de uma longa espera, o C-drama pergunta o que acontece quando duas pessoas se envolvem cedo demais, continuam mudando e precisam descobrir se aquilo que funcionou em uma determinada fase da vida ainda pode funcionar anos depois.
Com Jing Boran e Sun Qian no centro da história, uma abordagem mais adulta para o romance e uma inovação relevante nos bastidores, The Early Spring conseguiu transformar um velho clichê dos C-dramas em algo um pouco menos previsível.
Não é exatamente uma nova regra para os romances chineses.
Mas pode ser um sinal de que algumas regras não escritas do gênero já estão começando a mudar.
Imagem: Divulgação/Youku




