Lançada originalmente pela emissora JTBC em parceria com a Netflix, a produção apostou alto em efeitos visuais, cenas de perseguição e uma trama complexa que exige atenção constante do espectador.
Mas o grande diferencial de O Mito de Sísifo não está apenas na ação ou no suspense. O coração da série está no conflito humano entre destino e escolha, passado e futuro, culpa e redenção.
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Qual é a história de O Mito de Sísifo
A trama acompanha Han Tae-sul, interpretado por Cho Seung-woo, um engenheiro genial e cofundador da poderosa Quantum and Time Company, uma empresa de tecnologia reconhecida mundialmente.
Brilhante, excêntrico e extremamente confiante, Tae-sul carrega um trauma profundo desde a morte misteriosa de seu irmão mais velho, ocorrida dez anos antes. Esse acontecimento mudou completamente sua personalidade e passou a influenciar todas as suas decisões.
Tudo se intensifica quando ele sobrevive a um grave acidente de avião. A partir desse evento, novas pistas sobre a morte do irmão começam a surgir, levando Tae-sul a descobrir algo ainda mais perturbador: talvez a realidade não funcione exatamente como ele acreditava.
Sua investigação o coloca no centro de uma conspiração que envolve viagem no tempo, manipulação global e uma ameaça capaz de destruir o futuro da humanidade.
Kang Seo-hae: a guerreira que vem do futuro
É nesse momento que surge Kang Seo-hae, vivida por Park Shin-hye, uma das personagens mais marcantes da série.
Ela vem de um futuro devastado por guerra nuclear, onde cidades foram destruídas e a sobrevivência se tornou brutal. Treinada em combate e acostumada a viver em meio ao caos, Seo-hae retorna ao passado com uma missão clara: impedir que Han Tae-sul crie a tecnologia responsável pela destruição do mundo.
O interessante é que ela não funciona apenas como uma protagonista de ação. Apesar da força física e da habilidade em combate, Seo-hae carrega o peso emocional de alguém que viu tudo ruir.
Esse contraste entre frieza e sensibilidade torna sua personagem muito mais rica. Ela não é apenas uma heroína forte, mas alguém profundamente marcada pelas consequências do futuro que tenta evitar.
A viagem no tempo como peça central da narrativa
Se existe um elemento que define O Mito de Sísifo, é a forma como a série trabalha a viagem no tempo.
Aqui, o recurso não serve apenas como enfeite narrativo. Ele é o motor principal da história. Cada decisão dos personagens pode alterar o futuro, mas também pode acabar provocando exatamente aquilo que eles tentam impedir.
Essa construção cria um efeito constante de paradoxo temporal. O espectador acompanha escolhas que parecem corretas no presente, mas que revelam consequências devastadoras depois.
Esse estilo lembra bastante produções como Fringe e Counterpart, além de clássicos da ficção científica que exploram o conceito de inevitabilidade.
A grande pergunta da série passa a ser simples e complexa ao mesmo tempo: é realmente possível mudar o destino ou toda tentativa de mudança apenas confirma aquilo que já estava escrito?
O romance funciona em meio ao caos
Mesmo com toda a carga de ficção científica, O Mito de Sísifo continua sendo um k-drama. E isso significa que o romance tem papel importante.
A relação entre Tae-sul e Seo-hae nasce em um contexto extremo. Não há leveza nem encontros casuais. Existe urgência, perigo e a constante sensação de que o tempo está acabando.
Isso torna o envolvimento dos dois mais intenso. O romance não surge como um elemento separado da trama principal, mas como parte essencial da narrativa.
Tae-sul começa como um homem arrogante, racional e distante. Aos poucos, ele se transforma em alguém disposto a se sacrificar por outras pessoas. Já Seo-hae mostra que força não significa ausência de vulnerabilidade.
A química entre Cho Seung-woo e Park Shin-hye ajuda bastante nesse processo. O relacionamento convence justamente porque nasce em meio ao colapso.
Produção grandiosa e cenas de ação cinematográficas
Um dos aspectos mais elogiados da série é sua ambição visual.
Desde os primeiros episódios, fica claro que O Mito de Sísifo foi pensado como uma superprodução. Há perseguições intensas, confrontos físicos bem coreografados, cenas de fuga, tensão constante e uma ambientação que mistura alta tecnologia com atmosfera distópica.
Em muitos momentos, a sensação é mais próxima de um filme do que de um drama televisivo tradicional.
A direção usa bem a paleta de cores frias e os cenários urbanos para reforçar a ideia de um mundo à beira do colapso. Isso contribui para criar um clima permanente de urgência.
Park Shin-hye também chama atenção nas sequências de ação. Suas cenas de combate possuem ritmo forte e ajudam a sustentar o lado mais explosivo da produção.
Nem tudo funciona perfeitamente
Apesar das qualidades, O Mito de Sísifo também divide opiniões e apresenta problemas claros.
O principal deles está no excesso de ambição narrativa. Em alguns momentos, a série parece tentar abraçar ideias demais ao mesmo tempo. Isso gera episódios com ritmo irregular e situações que soam convenientes demais.
Algumas decisões parecem forçadas para manter a trama em movimento, algo comum em histórias com múltiplas linhas temporais.
Outro ponto bastante discutido entre os fãs é o final. A conclusão busca ser reflexiva e emocionalmente impactante, mas não agradou de forma unânime.
Há espectadores que consideram o encerramento coerente com a proposta filosófica da série, enquanto outros sentem que faltou uma resolução mais satisfatória.
Curiosamente, essa divisão não necessariamente prejudica a experiência. Em muitos casos, ela até reforça o debate sobre a obra.
O significado por trás do nome O Mito de Sísifo
O título da série não foi escolhido por acaso.
Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta sempre que chegava ao topo.
Essa ideia representa repetição, punição e a sensação de lutar contra algo inevitável.
A série utiliza esse conceito como metáfora para seus personagens, especialmente Han Tae-sul. Ele está preso em ciclos de culpa, perdas e tentativas constantes de corrigir o passado.
Também existe uma conexão indireta com a interpretação filosófica de Albert Camus, que usou o mito para discutir a condição humana e a busca por sentido em um mundo aparentemente absurdo.
Essa camada simbólica ajuda a dar mais profundidade ao roteiro e diferencia O Mito de Sísifo de outras produções puramente voltadas para ação.
Vale a pena assistir O Mito de Sísifo?
Para quem gosta de narrativas simples e totalmente lineares, talvez a série não seja a melhor escolha.
Mas para o público que aprecia ficção científica com paradoxos temporais, suspense e dramas emocionais intensos, O Mito de Sísifo oferece uma experiência bastante interessante.
Não é uma obra perfeita. Há exageros, oscilações de ritmo e um final que certamente vai gerar discussão.
Ainda assim, o conjunto funciona. A série consegue entregar entretenimento, boas cenas de ação e personagens que sustentam o peso emocional da trama.
Ela também mostra como os k-dramas podem ir muito além do romance tradicional, explorando gêneros mais complexos sem perder sua identidade.
Onde assistir
O Mito de Sísifo está disponível na Netflix e conta com 16 episódios.
Para quem procura um dorama diferente, com pegada de blockbuster e forte presença de ficção científica, a série segue sendo uma opção relevante dentro do catálogo da plataforma.
Mesmo anos após seu lançamento, continua sendo um daqueles títulos que muita gente descobre tarde e termina se perguntando como deixou passar uma produção tão ambiciosa.
Imagem: Reprodução Netflix