Com 512 milhões de horas assistidas, série criminal da Netflix merece sua atenção

Uma jovem chega aos círculos mais exclusivos de Nova York dizendo possuir uma fortuna na Europa. Hospeda-se em hotéis luxuosos, frequenta restaurantes caros, conquista pessoas influentes e tenta convencer instituições financeiras de que tem milhões de dólares à disposição.
O problema é que praticamente tudo fazia parte de uma identidade cuidadosamente construída. A história real acabou se tornando uma série criminal da Netflix com apenas nove episódios, misturando luxo, investigação jornalística, golpes financeiros e uma protagonista difícil de decifrar.
Abaixo você pode continuar a
leitura do artigo
O caso chamou tanta atenção que a produção se transformou em um dos grandes fenômenos do streaming após o lançamento. Em sua trajetória inicial, acumulou cerca de 512 milhões de horas assistidas segundo a metodologia usada pela Netflix na época.
Para quem gosta de histórias baseadas em acontecimentos reais, golpistas carismáticos e investigações que ficam mais absurdas a cada nova descoberta, esta é uma maratona que merece entrar na lista.
Leia mais:
6 minisséries da Netflix para assistir em um único fim de semana
Inventando Anna é a série criminal baseada em um golpe real
A produção é Inventando Anna, minissérie lançada pela Netflix em 2022 e criada por Shonda Rhimes, nome por trás de sucessos como Grey’s Anatomy, Scandal e Bridgerton.
A série criminal acompanha o caso de Anna Delvey, identidade usada por Anna Sorokin para circular entre integrantes da elite de Nova York enquanto dizia ser uma rica herdeira alemã.
Interpretada por Julia Garner, Anna constrói uma imagem de riqueza aparentemente difícil de questionar.
Ela aparece usando roupas caras, pagando grandes gorjetas, frequentando hotéis sofisticados e falando sobre projetos que exigiriam investimentos de milhões de dólares.
Quanto mais convincente aquela imagem se torna, mais portas começam a se abrir.
A grande pergunta apresentada pela produção é simples: como alguém sem a fortuna que dizia possuir conseguiu convencer tantas pessoas de que era extremamente rica?
É justamente a tentativa de responder a essa questão que sustenta os nove episódios.

A verdadeira Anna Delvey não era uma herdeira milionária
A história de Inventando Anna começa muito antes da adaptação para o streaming.
Anna Delvey era o nome adotado por Anna Sorokin, uma jovem nascida na Rússia que posteriormente viveu na Alemanha e passou a circular em diferentes ambientes internacionais.
Quando chegou ao universo da alta sociedade nova-iorquina, ela dizia pertencer a uma família rica da Europa.
A suposta fortuna explicaria seu estilo de vida e serviria como garantia de que eventuais problemas financeiros seriam apenas temporários.
Na prática, porém, Anna não possuía os recursos que afirmava ter.
Ainda assim, conseguiu construir uma imagem suficientemente convincente para se hospedar em hotéis luxuosos, contratar serviços, frequentar locais exclusivos e estabelecer relações com pessoas influentes.
A aparência de riqueza se tornou uma das principais ferramentas usadas para sustentar a mentira.
O luxo ajudava a tornar a história convincente
Um dos aspectos mais curiosos do caso é a importância das aparências.
Anna não precisava necessariamente mostrar milhões de dólares em uma conta bancária para que todos acreditassem em sua fortuna.
O próprio comportamento funcionava como uma espécie de prova social.
Ela distribuía gorjetas generosas, falava sobre viagens internacionais, frequentava espaços exclusivos e mantinha uma postura de quem estava acostumada a ter dinheiro.
Para muitas pessoas ao seu redor, parecia mais lógico acreditar que aquela jovem realmente fosse rica do que imaginar a dimensão da história que estava sendo construída.
Esse mecanismo é fundamental para compreender por que o caso funcionou tão bem como uma série criminal.
O golpe não dependia apenas de documentos ou transferências bancárias. Dependia também da percepção das pessoas.
O plano de Anna Delvey envolvia milhões de dólares
A ambição da falsa herdeira ia muito além de conseguir hospedagem ou refeições caras.
Anna queria criar um empreendimento chamado Anna Delvey Foundation, projeto pensado como um clube privado e espaço dedicado às artes em Manhattan.
Para colocar o plano em funcionamento, seria necessário levantar uma grande quantidade de dinheiro.
Ela começou então a conversar com advogados, consultores, investidores e instituições financeiras.
A apresentação do projeto reforçava a imagem de jovem empresária com acesso a uma fortuna familiar.
Ao tentar conseguir financiamento, Anna precisava provar que possuía recursos suficientes para sustentar o empreendimento.
É justamente nesse ponto que as inconsistências começam a ficar maiores.
Documentos, promessas de transferências e explicações sobre dinheiro mantido no exterior passam a fazer parte da história.
Quanto mais ambicioso se torna o projeto, mais difícil fica sustentar a identidade criada.
Uma jornalista conduz a investigação na série criminal
Apesar de Anna ocupar o centro da história, Inventando Anna utiliza outra personagem para conduzir boa parte da narrativa.
Vivian Kent, interpretada por Anna Chlumsky, é uma jornalista que descobre o caso e decide investigar quem realmente é aquela misteriosa jovem apresentada como herdeira.
No começo, a história poderia parecer apenas mais um processo envolvendo fraude.
Conforme Vivian começa a conversar com pessoas que conheceram Anna, porém, percebe que cada uma delas possui uma versão diferente sobre a protagonista.
Para alguns, ela era uma amiga.
Para outros, uma empresária ambiciosa.
Também havia quem a enxergasse como socialite, golpista ou alguém simplesmente tentando entrar em ambientes aos quais não pertencia.
A investigação jornalística funciona como um quebra-cabeça.
A cada episódio, novas informações ajudam o espectador a compreender como aquela identidade foi construída e por que tantas pessoas acreditaram nela.
Vivian Kent foi inspirada em uma jornalista real
A personagem Vivian Kent não corresponde exatamente a uma pessoa real.
Ela foi inspirada principalmente na jornalista Jessica Pressler, responsável por investigar a história de Anna Sorokin.
Pressler publicou em 2018 uma reportagem detalhada na revista New York sobre a jovem que havia conseguido entrar na elite da cidade e acumular problemas financeiros enquanto se apresentava como herdeira.
A matéria chamou a atenção de Shonda Rhimes.
A própria criadora explicou posteriormente que enxergou imediatamente potencial para transformar aquela história em uma produção televisiva.
A adaptação, entretanto, não reproduz todos os fatos exatamente como aconteceram.
Inventando Anna mistura fatos reais e elementos dramatizados
Essa diferença é importante para quem começa Inventando Anna esperando encontrar um documentário.
A série criminal é inspirada em acontecimentos reais, mas continua sendo uma obra de ficção dramatizada.
Anna Sorokin existiu.
Sua identidade como Anna Delvey existiu.
As acusações criminais, dívidas, hotéis, tentativa de levantar dinheiro para seu projeto e julgamento também fazem parte do caso verdadeiro.
Entretanto, diálogos, acontecimentos e determinadas relações foram adaptados para a televisão.
Alguns personagens também foram modificados, condensados ou criados a partir de diferentes pessoas envolvidas no caso.
A própria produção brinca com essa fronteira entre fato e ficção desde os episódios iniciais.
Portanto, a melhor maneira de assistir é encarar a série como uma dramatização de uma história verdadeira, e não como uma reconstrução documental de cada detalhe do processo.
O que aconteceu com Anna Sorokin na vida real?
A trajetória da falsa herdeira acabou chegando aos tribunais.
Anna Sorokin foi julgada em Nova York em 2019 por acusações relacionadas aos golpes praticados enquanto utilizava sua identidade como Anna Delvey.
Ela acabou considerada culpada em oito acusações.
Entre elas estavam crimes relacionados a furto de serviços, grande furto e tentativa de grande furto.
Também houve acusações das quais ela foi absolvida.
Sorokin recebeu uma sentença de quatro a 12 anos de prisão, além de multa e obrigação de pagar restituições.
O caso recebeu enorme atenção da imprensa norte-americana.
Até mesmo suas roupas durante o julgamento passaram a ser observadas e comentadas, reforçando o interesse público por uma história na qual imagem e status sempre tiveram papel central.
Julia Garner domina a série como Anna Delvey
Outro elemento importante para o sucesso de Inventando Anna está na atuação de Julia Garner.
Conhecida especialmente por interpretar Ruth Langmore em Ozark, a atriz assume uma personagem completamente diferente nesta série criminal.
Anna aparece quase sempre extremamente confiante.
Mesmo quando sua situação começa a desmoronar, ela mantém uma postura que faz parecer que todos ao redor estão exagerando ou simplesmente não compreenderam seus planos.
Julia Garner também adotou um sotaque bastante particular para interpretar a personagem.
A própria atriz explicou que buscou reproduzir a forma de falar da verdadeira Anna, cuja trajetória passou pela Rússia, Alemanha e Estados Unidos.
O resultado é uma personagem propositalmente difícil de classificar.
Em determinadas cenas, Anna parece vulnerável.
Em outras, manipuladora, arrogante ou extremamente calculista.
Essa imprevisibilidade ajuda a sustentar o interesse mesmo quando o público já conhece o destino geral da história.
Quantos episódios tem Inventando Anna?
Inventando Anna possui apenas nove episódios.
Isso torna a produção uma opção interessante para quem procura uma série criminal completa, mas não quer começar uma história com várias temporadas.
Os capítulos são longos.
Segundo o catálogo da Netflix no Brasil, o primeiro episódio, Vida de VIP, possui cerca de 1h04. Outros capítulos passam de uma hora, enquanto o episódio final, Perigo iminente, chega a aproximadamente 1h22.
Na prática, é uma produção que exige cerca de dez horas para ser concluída.
É possível dividir a maratona em um episódio por noite ou concentrar a maior parte da história em um fim de semana.
Como a trama possui começo, desenvolvimento e conclusão dentro da própria minissérie, não existe a necessidade de avançar por dezenas de episódios para descobrir o desfecho.
Série criminal teve cerca de 512 milhões de horas assistidas
O alcance de Inventando Anna também ajuda a dimensionar o interesse despertado pelo caso.
A produção chegou a registrar aproximadamente 512 milhões de horas assistidas durante o período usado pela Netflix para medir seus maiores sucessos naquele momento.
É importante fazer uma distinção: isso não significa 512 milhões de espectadores.
A métrica utilizada pela plataforma considerava o total de horas consumidas pelos assinantes.
Ou seja, uma pessoa que assistisse aos nove episódios contribuiria com várias horas para o resultado final.
Mesmo assim, o número evidencia a enorme repercussão conquistada pela série após sua estreia.
Na época, Inventando Anna chegou a figurar entre as produções em inglês mais populares do catálogo global da Netflix.
Por que essa história chamou tanta atenção?
Golpes financeiros não são novidade em produções de true crime.
O diferencial deste caso está na combinação entre crime, luxo, redes sociais, dinheiro e a capacidade de construir uma identidade praticamente do zero.
Anna não se limitava a dizer que era rica.
Ela vivia de maneira calculada para parecer rica.
Essa diferença é essencial.
Cada hotel sofisticado, roupa cara, jantar exclusivo e contato influente ajudava a fortalecer a história diante da próxima pessoa que conhecia.
A produção também levanta questões sobre o funcionamento dos ambientes frequentados pela protagonista.
Em determinados círculos, parecer pertencer àquele universo pode ser tão importante quanto conseguir provar de onde veio o dinheiro.
É nesse ponto que Inventando Anna se torna mais interessante do que uma simples narrativa sobre uma golpista.
A série também observa as pessoas que acreditaram nela e os sistemas que permitiram que a história avançasse.
Vale a pena assistir à série criminal da Netflix?
Quem gosta de crimes reais, golpes financeiros e personagens moralmente ambíguos encontra em Inventando Anna uma proposta diferente das séries centradas em assassinatos e investigações policiais.
Aqui, boa parte da tensão acontece em hotéis, restaurantes, escritórios, bancos e reuniões de negócios.
O suspense está em descobrir até onde Anna conseguirá levar sua identidade e o que acontecerá quando pessoas diferentes começarem a perceber que as promessas não correspondem à realidade.
Outro ponto favorável é o formato fechado.
Com nove episódios, a série conta toda a história sem exigir o compromisso de acompanhar várias temporadas.
Além disso, o fato de o caso ter acontecido realmente torna determinados acontecimentos ainda mais surpreendentes.
É difícil assistir a algumas situações sem pensar em como alguém conseguiu sustentar aquela história por tanto tempo.
Disponível atualmente no catálogo brasileiro da Netflix, Inventando Anna combina investigação jornalística, luxo, mentiras e um dos casos de fraude mais conhecidos dos últimos anos.
Para quem procura uma série criminal baseada em fatos reais, com uma história completa e apenas nove episódios, a produção pode render uma maratona difícil de interromper.
Imagem: Reprodução Netflix




