O catálogo da Netflix ganhou em 2026 um drama que rapidamente chamou atenção do público: O Último Gigante. Dirigido por Marcos Carnevale, o filme mergulha em uma história profundamente humana sobre abandono afetivo, reconciliação e o peso das escolhas do passado.
A trama acompanha Boris, interpretado por Matías Mayer, um guia turístico que vive em Puerto Iguazú, na região das famosas Cataratas do Iguaçu. Sua rotina aparentemente estável é quebrada quando seu pai, Julián, vivido por Oscar Martínez, reaparece após quase três décadas de ausência.
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Esse reencontro não traz alívio — ao contrário, reacende dores antigas que nunca foram superadas.
O Último Gigante fala sobre abandono, culpa e segundas chances
O ponto de partida do filme é simples, mas carregado de tensão emocional: um pai que abandona o filho na infância retorna após 28 anos tentando recuperar o tempo perdido.
No entanto, O Último Gigante foge do clichê da reconciliação imediata. Boris não demonstra qualquer desejo de reaproximação. Sua reação é marcada por frieza, desconforto e até hostilidade — sentimentos compreensíveis diante de um abandono que marcou toda sua vida.
Esse conflito direto entre pai e filho sustenta a narrativa. O roteiro constrói, com intensidade, a ideia de que nem toda relação pode ser reconstruída apenas com arrependimento.
Doença como urgência dramática
A situação se torna ainda mais complexa quando Julián revela estar com câncer terminal. Esse elemento introduz um senso de urgência: o tempo para resolver o passado está acabando.
Mas o filme não usa a doença como uma solução emocional fácil. Pelo contrário, reforça o dilema central: o perdão deve ser concedido apenas porque o tempo acabou?
Essa pergunta ecoa ao longo de toda a narrativa e dialoga diretamente com experiências reais de muitos brasileiros, onde relações familiares rompidas nem sempre encontram resolução, mesmo diante de situações extremas.
O cenário como extensão das emoções
Um dos maiores acertos do filme é o uso das Cataratas do Iguaçu como elemento narrativo.
O cenário não serve apenas como pano de fundo. A força das águas, o barulho constante e a grandiosidade da paisagem refletem o turbilhão emocional vivido pelos personagens.
Assim como as quedas d’água são intensas e incontroláveis, os sentimentos entre pai e filho também são. Há um acúmulo de mágoas que, em algum momento, precisa transbordar.
A rotina como prisão emocional
Boris trabalha diariamente guiando turistas pelas cataratas. Essa repetição reforça a ideia de que ele está preso não apenas ao trabalho, mas também ao passado.
Mesmo diante de uma paisagem grandiosa, sua vida é limitada por traumas não resolvidos — um contraste que dá profundidade à narrativa.
O Último Gigante tem atuações que sustentam o drama
Oscar Martínez entrega um pai imperfeito
Oscar Martínez constrói um Julián complexo: frágil, arrependido, mas longe de ser inocente. Sua atuação evita transformar o personagem em vítima.
Ele representa alguém que tomou decisões egoístas e agora precisa lidar com as consequências — sem garantia de redenção.
Matías Mayer e a dor contida
Já Matías Mayer interpreta Boris com uma intensidade silenciosa. Seu personagem não busca simpatia do público. Ele é duro, fechado e, em alguns momentos, cruel.
Mas essa postura faz sentido: trata-se de alguém que cresceu sem pai e precisou lidar sozinho com as consequências desse abandono.
Essa dualidade entre os personagens é o que dá força ao filme.
O debate central: perdão é obrigação?
O Último Gigante levanta uma discussão profunda e atual: o perdão é um dever moral ou uma escolha individual?
No Brasil, esse tema é especialmente relevante. Dados de instituições como o IBGE mostram que milhões de brasileiros crescem em lares com ausência paterna, o que reforça a identificação com a história.
O filme não tenta oferecer respostas prontas. Em vez disso, apresenta dois pontos de vista:
Julián acredita que ainda há tempo para consertar tudo
Boris entende que algumas feridas não podem ser apagadas
Esse confronto de perspectivas torna a narrativa mais realista e impactante.
Redenção nem sempre é suficiente
Outro ponto importante é que o filme desconstrói a ideia de que o arrependimento resolve tudo.
Mesmo diante da doença e da proximidade da morte, Boris não se sente obrigado a perdoar. E isso é tratado com respeito pelo roteiro, sem julgamentos simplistas.
Pontos fortes e limitações do filme
O que funciona bem
Construção emocional consistente
Atuações intensas e realistas
Uso inteligente do cenário
Debate profundo sobre relações familiares
Onde o filme pode falhar
Em alguns momentos, o roteiro exagera nos diálogos explicativos, tirando a sutileza de certas cenas. Há também uma sensação de previsibilidade em determinados trechos, especialmente para quem já está acostumado com dramas familiares.
Ainda assim, esses pontos não comprometem o impacto geral da obra.
Vale a pena assistir O Último Gigante?
Para quem gosta de histórias emocionais, centradas em relações humanas e dilemas morais, O Último Gigante é uma excelente escolha na Netflix.
O filme não entrega respostas fáceis nem finais idealizados. Em vez disso, oferece uma reflexão honesta sobre:
As consequências do abandono
A complexidade do perdão
O peso do tempo nas relações familiares
É uma obra que pode tocar profundamente o espectador — especialmente aqueles que já viveram situações semelhantes.
Considerações finais
O Último Gigante se destaca como um dos dramas mais sensíveis recentes do catálogo da Netflix. Ao explorar o reencontro entre pai e filho sem recorrer a soluções simplistas, o filme entrega uma narrativa madura, emocional e, acima de tudo, realista.
Mais do que uma história sobre reconciliação, trata-se de um retrato sobre escolhas, consequências e limites emocionais.
Nem todo passado pode ser corrigido. E o filme deixa isso claro de forma poderosa.