Monstro: A História de Lizzie Borden chegou à Netflix; conheça o crime real por trás da série

Monstro: A História de Lizzie Borden chegou à Netflix nesta quinta-feira, 17 de setembro, colocando novamente em evidência um dos crimes mais discutidos da história dos Estados Unidos. Mais de 130 anos depois dos assassinatos de Andrew e Abby Borden, ainda não existe uma resposta judicial definitiva para uma pergunta aparentemente simples: quem matou o casal dentro de casa?
Lizzie Borden, filha de Andrew e enteada de Abby, tornou-se a principal suspeita. Foi presa, levada a julgamento e transformada em personagem de manchetes em todo o país. Entretanto, terminou absolvida pelo júri em 1893, e nenhuma outra pessoa foi posteriormente condenada pelas mortes.
Abaixo você pode continuar a
leitura do artigo
A ausência de uma solução ajudou a transformar o caso em fenômeno cultural. Ao longo das décadas, fatos comprovados passaram a dividir espaço com rumores, teorias e até uma famosa cantiga que praticamente condena Lizzie sem considerar o resultado do julgamento.
É justamente nesse terreno que a Netflix constrói Monstro: A História de Lizzie Borden. A produção de Ryan Murphy e Ian Brennan utiliza o caso real como inspiração, mas adota uma versão ficcionalizada da personagem e dos acontecimentos. Por isso, entender o que realmente se sabe sobre os crimes ajuda a separar História e dramatização.
Leia mais:
Você já assistiu? O Segredo de Widow’s Bay fez história no Emmy 2026
O crime que transformou a família Borden em notícia nacional
Na manhã de 4 de agosto de 1892, a residência da família Borden em Fall River, Massachusetts, tornou-se cenário de dois assassinatos extremamente violentos.
Andrew Borden, um empresário de 69 anos, foi encontrado morto no sofá de uma sala da casa. O assassino havia atingido repetidamente sua cabeça e seu rosto com uma arma cortante. Registros históricos apontam cerca de dez ou onze golpes.
A descoberta levou imediatamente a uma pergunta: onde estava Abby Borden, esposa de Andrew e madrasta de Lizzie?
Pouco depois, Abby foi encontrada no andar superior, dentro de um quarto de hóspedes. Ela também havia sido assassinada violentamente, sofrendo aproximadamente 19 golpes. A análise dos corpos indicou que Abby teria morrido antes do marido, possivelmente cerca de uma hora e meia antes.
O intervalo entre as duas mortes seria um dos elementos mais intrigantes de toda a investigação. O assassino aparentemente permaneceu na residência ou conseguiu entrar e sair sem ser percebido, apesar de outras pessoas estarem na propriedade durante parte daquela manhã.

Quem estava na casa no dia dos assassinatos?
Esse detalhe foi fundamental para que as suspeitas acabassem se concentrando em Lizzie.
Emma Borden, irmã mais velha de Lizzie, estava fora da cidade. Andrew havia saído durante a manhã para tratar de assuntos pessoais e comerciais, enquanto Abby permaneceu na residência.
Além de Lizzie, estava na propriedade Bridget Sullivan, empregada da família, conhecida como Maggie. Em determinado momento da manhã, Bridget realizou tarefas do lado de fora da casa e posteriormente foi descansar em seu quarto no sótão.
Andrew retornou para casa e pouco tempo depois foi morto.
Foi Lizzie quem chamou Bridget dizendo que o pai estava morto. Depois que outras pessoas começaram a chegar, surgiu a necessidade de localizar Abby. Seu corpo foi então encontrado no andar superior.
A presença de Lizzie dentro da residência e as dificuldades para estabelecer de forma completamente consistente seus movimentos naquela manhã acabariam chamando a atenção dos investigadores.
Por que Lizzie Borden virou suspeita?
A polícia inicialmente considerou a possibilidade de um invasor ter cometido os assassinatos. Naquela época, preconceitos sociais também influenciaram a investigação, e autoridades chegaram a suspeitar rapidamente de homens imigrantes da região.
A atenção acabou mudando de direção conforme os policiais começaram a analisar a dinâmica dentro da residência Borden.
Lizzie tinha 32 anos e ainda morava com o pai. Andrew possuía uma fortuna considerável construída por meio de investimentos em imóveis, bancos e atividades industriais, mas era conhecido por manter um estilo de vida relativamente econômico.
As relações dentro da família também não eram simples. Lizzie e Emma tinham conflitos relacionados à madrasta e a decisões financeiras tomadas pelo pai. Esses elementos passaram a ser utilizados como possíveis motivos pela acusação.
Nenhum deles, porém, provava que Lizzie havia cometido os crimes.
O problema para ela surgiu da combinação entre circunstâncias, depoimentos considerados inconsistentes e acontecimentos estranhos registrados nos dias próximos aos assassinatos.
A tentativa de comprar veneno entrou na investigação
Um dos fatos mais comentados ocorreu pouco antes das mortes.
Segundo testemunhos apresentados durante o processo, Lizzie teria tentado comprar ácido prússico, substância altamente tóxica, em uma farmácia no dia anterior aos assassinatos. O farmacêutico teria se recusado a vender o produto sem uma justificativa adequada.
Naturalmente, o episódio parecia extremamente comprometedor quando associado às mortes ocorridas poucas horas depois.
Entretanto, esse elemento enfrentou problemas jurídicos durante o julgamento. Os juízes impediram que parte do testemunho relacionado à tentativa de compra fosse apresentada ao júri da forma pretendida pela acusação.
Isso ilustra uma das características mais importantes do caso: várias circunstâncias pareciam suspeitas isoladamente, mas transformá-las em prova de assassinato era muito mais difícil.
O vestido queimado aumentou ainda mais as suspeitas
Outro episódio marcante aconteceu depois das mortes.
Alice Russell, amiga próxima de Lizzie, contou posteriormente ter visto Lizzie queimando um vestido no fogão alguns dias após os assassinatos. A justificativa apresentada era de que a peça estava manchada de tinta e não teria mais utilidade.
Para os promotores, o comportamento poderia representar destruição de evidências.
O depoimento de Alice ganhou importância principalmente porque ela inicialmente não havia mencionado o episódio às autoridades. Posteriormente, após procurar orientação jurídica, decidiu revelar o que tinha visto.
A informação contribuiu para que um grande júri aprovasse a acusação formal contra Lizzie.
Ainda assim, jamais foi demonstrado de maneira conclusiva que aquele vestido havia sido utilizado durante os assassinatos ou que continha sangue das vítimas.
Havia sangue nas roupas de Lizzie?
Esse foi justamente um dos grandes problemas enfrentados pela acusação.
Os assassinatos foram extremamente violentos. Abby recebeu aproximadamente 19 golpes, enquanto Andrew foi atingido cerca de dez ou onze vezes. Um ataque dessa natureza poderia produzir uma quantidade significativa de sangue.
No entanto, a polícia não encontrou roupas ensanguentadas capazes de ligar Lizzie diretamente aos crimes.
Uma peça entregue às autoridades e apontada como a roupa utilizada por ela naquela manhã apresentava apenas uma pequena mancha de sangue na região inferior, sem a quantidade que poderia ser esperada após dois ataques brutais.
Também não surgiu uma arma comprovadamente utilizada nos assassinatos que estivesse diretamente ligada a Lizzie.
Machados e machadinhas encontrados na residência foram analisados, mas um químico de Harvard relatou não ter identificado sangue em alguns dos objetos examinados.
Essa ausência de evidências físicas foi explorada fortemente pelos advogados de defesa.
A arma do crime nunca foi determinada com certeza
A imagem de Lizzie Borden com um machado tornou-se tão famosa que muitas pessoas acreditam que a arma utilizada foi encontrada e associada diretamente a ela.
Não foi isso que aconteceu.
Uma machadinha encontrada no porão da casa chamou atenção dos investigadores. O cabo parecia ter sido quebrado, o que levantou especulações de que alguém poderia ter tentado destruir evidências.
Porém, nunca surgiu uma ligação forense conclusiva entre aquele objeto e os assassinatos.
As técnicas de investigação criminal também eram extremamente diferentes das atuais. Impressões digitais, DNA, análise moderna de padrões de sangue e diversos procedimentos hoje considerados básicos simplesmente não estavam disponíveis ou ainda não eram empregados de forma padronizada.
Essa limitação ajuda a explicar por que tantas perguntas permaneceram abertas.
Lizzie chegou a prestar depoimento?
Sim, mas seu depoimento criou mais controvérsias.
Durante uma investigação preliminar, Lizzie respondeu a perguntas sobre seus movimentos na manhã dos crimes. Algumas respostas pareceram contraditórias, principalmente em relação a onde estava e ao que havia feito antes de encontrar o pai morto.
O médico da família afirmou que Lizzie estava tomando morfina após os assassinatos, algo que poderia ter afetado seu estado mental e contribuído para confusão em suas respostas.
Quando chegou o julgamento principal, parte importante daquele depoimento acabou excluída.
Lizzie também não subiu ao banco das testemunhas durante o julgamento para responder diretamente às acusações diante do júri.
Assim, vários dos elementos que haviam fortalecido a suspeita durante a investigação ficaram limitados ou não puderam ser utilizados da mesma forma na fase decisiva do processo.
O julgamento começou quase um ano depois
Lizzie foi presa em 11 de agosto de 1892, exatamente uma semana após os assassinatos.
O julgamento começou apenas em junho de 1893 e rapidamente se transformou em um espetáculo nacional. Repórteres acompanharam o processo, jornais publicaram detalhes diariamente e a imagem da acusada passou a ser discutida muito além de Fall River.
A acusação precisava convencer o júri de que Lizzie tinha motivo, oportunidade e condições para cometer os dois assassinatos. O problema era a ausência de uma prova física capaz de colocá-la definitivamente como autora dos golpes.
A defesa explorou justamente essas dúvidas.
Não havia testemunha ocular. Não havia roupa coberta de sangue. Não havia uma arma comprovadamente ligada à acusada. E alguns dos elementos considerados mais comprometedores não foram admitidos integralmente no julgamento.
Ser mulher também influenciou o julgamento?
Historiadores apontam que gênero e classe social tiveram peso importante na forma como Lizzie foi enxergada pelo público e pelo júri.
Ela era uma mulher branca, protestante e pertencente a uma família rica e conhecida. Participava de atividades religiosas e sociais, perfil que entrava em choque com a imagem que muitos norte-americanos do final do século XIX tinham de alguém capaz de cometer assassinatos tão violentos.
A defesa soube explorar essa percepção. Durante o julgamento, Lizzie apareceu vestida de maneira considerada adequada aos padrões femininos da época, e jornais frequentemente descreveram seu comportamento com termos que reforçavam delicadeza e respeitabilidade.
Outro fator importante é que mulheres não podiam integrar o júri. Lizzie foi julgada exclusivamente por homens.
Estudos históricos posteriores discutem até que ponto os estereótipos da sociedade vitoriana sobre gênero, religião e classe ajudaram a tornar uma condenação mais difícil.
Lizzie Borden foi absolvida
Em 20 de junho de 1893, o júri apresentou o veredito.
Lizzie Borden foi declarada inocente.
Os jurados chegaram à decisão rapidamente. Relatos históricos indicam que a deliberação efetiva levou aproximadamente uma hora e meia ou até menos, com parte do tempo possivelmente utilizada para evitar a impressão pública de uma decisão precipitada.
A absolvição colocou fim ao processo criminal contra Lizzie.
Ela nunca mais foi julgada pelos assassinatos de Andrew e Abby Borden, e nenhuma outra pessoa acabou condenada pelos crimes.
Do ponto de vista jurídico, portanto, não é correto afirmar que Lizzie foi comprovadamente a assassina. Ela foi acusada e posteriormente absolvida.
A famosa história dos “40 golpes” não aconteceu
A cultura popular ajudou a distorcer vários detalhes do caso.
Uma das principais responsáveis foi uma cantiga infantil norte-americana que afirma que Lizzie atingiu a madrasta 40 vezes e depois deu outros 41 golpes no pai.
Esses números não correspondem às conclusões históricas.
Abby sofreu aproximadamente 19 golpes, enquanto Andrew foi atingido cerca de dez ou onze vezes. Além disso, especialistas geralmente descrevem a arma como uma machadinha, e não necessariamente o grande machado normalmente associado às representações populares.
A cantiga, porém, foi repetida durante gerações e ajudou a transformar Lizzie em uma espécie de personagem folclórica.
Para milhões de pessoas, a rima acabou tendo mais influência sobre a memória do caso do que o próprio resultado do julgamento.
O que aconteceu com Lizzie depois da absolvição?
Depois de deixar o tribunal, Lizzie não abandonou Fall River.
Ela e Emma utilizaram a herança para comprar uma residência maior em uma região mais valorizada da cidade. A casa ficou conhecida como Maplecroft.
A mudança representava, em certo sentido, o estilo de vida que Lizzie desejava antes dos assassinatos. Ela passou a viajar, frequentar teatros e manter contato com pessoas ligadas ao meio artístico.
A absolvição, entretanto, não encerrou o julgamento social.
Parte da comunidade continuou tratando Lizzie como responsável pelas mortes. Crianças faziam brincadeiras diante de sua residência e visitantes passaram a procurar locais relacionados ao crime.
A relação entre Lizzie e Emma também terminou deteriorada. Emma deixou Maplecroft em 1905, e as duas permaneceram afastadas.
Lizzie morreu em 1927, aos 66 anos. Emma morreu apenas alguns dias depois. Ambas foram enterradas no mesmo jazigo familiar onde estavam Andrew e Abby.
Então quem matou Andrew e Abby Borden?
Não existe uma resposta comprovada.
Há inúmeras teorias sobre o caso, e Lizzie continua sendo a figura mais frequentemente apontada. Alguns pesquisadores consideram as circunstâncias suficientes para acreditar em sua participação; outros ressaltam que as evidências disponíveis deixam lacunas importantes.
Também surgiram teorias envolvendo outros integrantes da família, a empregada Bridget Sullivan, conhecidos dos Borden e possíveis invasores.
Nenhuma dessas hipóteses resultou em comprovação judicial.
O tempo tornou uma solução ainda mais improvável. Evidências foram perdidas, métodos modernos de perícia não puderam ser aplicados adequadamente e todas as pessoas diretamente envolvidas morreram há décadas.
Mais de 130 anos depois, os assassinatos permanecem oficialmente sem uma autoria estabelecida em tribunal.
O que a Netflix mudou na história real?
Esse é um ponto essencial antes de assistir a Monstro: A História de Lizzie Borden.
A Netflix não apresenta a produção como um documentário neutro sobre a investigação. Ryan Murphy e Ian Brennan constroem uma interpretação dramatizada que transforma Lizzie em protagonista de uma narrativa envolvendo repressão, desejo, liberdade e violência.
A própria Ella Beatty, atriz que interpreta Lizzie, explicou que pesquisou extensamente a mulher real, mas que sua função era interpretar a versão ficcional criada para a série.
Na produção, Bridget “Maggie” Sullivan, interpretada por Vicky Krieps, ganha uma relação particularmente importante com Lizzie. Essa dinâmica faz parte da construção dramática da série e não deve ser automaticamente tratada como fato histórico comprovado.
A trama também utiliza Aileen Wuornos, interpretada por Sarah Paulson, em cenas ambientadas muitas décadas depois. Wuornos não possui relação direta com os assassinatos da família Borden; sua presença serve para desenvolver a discussão da série sobre o legado cultural de mulheres associadas a crimes violentos.
Monstro usa justamente a dúvida que mantém o caso vivo
A grande vantagem narrativa de Monstro: A História de Lizzie Borden está na ausência de uma resposta histórica definitiva.
A série pode imaginar motivações, relações e acontecimentos porque diversos pontos do caso continuam abertos à interpretação. Ao mesmo tempo, essa liberdade exige que o espectador saiba diferenciar aquilo que está documentado daquilo que foi criado para a televisão.
Os fatos centrais são conhecidos: Andrew e Abby Borden foram assassinados em 4 de agosto de 1892; Lizzie estava na propriedade, tornou-se a principal suspeita, foi presa e posteriormente julgada.
Também é fato que o caso contra ela dependia principalmente de evidências circunstanciais e que o júri a absolveu em 20 de junho de 1893.
Tudo aquilo que tenta responder definitivamente quem levantou a arma naquela manhã entra em território muito mais incerto.
É justamente essa ausência de solução que fez o caso sobreviver por mais de um século — e que agora transforma Monstro: A História de Lizzie Borden em uma das estreias mais curiosas da Netflix para quem gosta de histórias criminais.
Imagem: Reprodução Netflix




