Este filme fracassou nos cinemas, mas hoje ocupa o Top 3 da Netflix

Um ambicioso filme de ficção científica ganhou uma segunda oportunidade junto ao público. Depois de enfrentar dificuldades nas bilheterias, a produção chegou ao streaming e rapidamente passou a figurar entre as mais assistidas pelos brasileiros.
Nesta quinta-feira, 27 de agosto, o longa aparece na terceira colocação do ranking diário de filmes da Netflix no Brasil. A subida chama atenção porque se trata de uma obra de grande orçamento, dirigida por um vencedor do Oscar e protagonizada por Robert Pattinson.
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Por trás da aventura espacial, o espectador encontra humor ácido, clonagem, disputas políticas e uma crítica direta à maneira como trabalhadores podem ser tratados como recursos descartáveis. É uma opção diferente para quem procura um filme que combine entretenimento e reflexão.
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Qual é o filme que está no Top 3 da Netflix?
O filme que ocupa a terceira posição entre os mais vistos da Netflix no Brasil é Mickey 17, produção de 2025 escrita e dirigida por Bong Joon Ho, cineasta sul-coreano responsável pelo premiado Parasita.
A colocação corresponde ao ranking diário acompanhado em 27 de agosto. Como a lista é atualizada conforme o comportamento dos assinantes, as posições podem mudar ao longo do dia ou nos dias seguintes.
Segundo o levantamento do FlixPatrol, Mickey 17 aparece atrás apenas de La Captura e A Onda. O desempenho mostra que a chegada ao catálogo brasileiro conseguiu renovar o interesse por uma produção que não alcançou o retorno financeiro esperado nos cinemas.
Na Netflix, o filme aparece classificado para maiores de 16 anos. A plataforma o apresenta dentro das categorias de ficção científica, comédia e produções baseadas em livros. Sua duração é de aproximadamente 2 horas e 17 minutos.
Sobre o que é Mickey 17?
A história acompanha Mickey Barnes, um homem endividado que decide abandonar a Terra e participar de uma missão para colonizar Niflheim, um planeta congelado e aparentemente pouco receptivo à vida humana.
Sem compreender completamente as condições de seu novo trabalho, Mickey se torna um “Descartável”. Isso significa que ele será enviado para executar as tarefas mais perigosas da expedição, justamente aquelas que apresentam grandes chances de terminar em morte.
Quando Mickey morre, porém, sua existência não acaba. O corpo é recriado por meio de uma espécie de impressora biológica, enquanto as memórias armazenadas são transferidas para a nova versão.
Esse processo permite que os responsáveis pela missão utilizem o personagem repetidamente. Ele pode morrer em um teste, retornar em outro corpo e ser enviado para um novo trabalho perigoso, sem que a organização precise encontrar outro voluntário.
A situação foge do controle quando Mickey 17 sobrevive a uma missão na qual todos acreditavam que ele havia morrido. Ao retornar para a base, encontra Mickey 18, uma nova cópia que já foi produzida para substituí-lo.
A existência simultânea de duas versões é proibida pelas regras da colônia. Caso a duplicação seja descoberta, os dois podem ser eliminados definitivamente, incluindo o arquivo com as memórias que permitiria uma nova impressão.
Por que Mickey 17 está fazendo sucesso na Netflix?
A presença no Top 3 pode ser explicada por uma combinação de fatores. O primeiro é a curiosidade despertada pela premissa incomum, que transforma a morte do protagonista em parte de sua rotina profissional.
O segundo é a popularidade de Robert Pattinson. Conhecido por Crepúsculo e The Batman, o ator construiu nos últimos anos uma carreira marcada por personagens complexos e projetos menos previsíveis.
Também pesa a assinatura de Bong Joon Ho. Depois do impacto mundial de Parasita, primeiro longa em língua não inglesa a conquistar o Oscar de Melhor Filme, cada novo trabalho do diretor passou a despertar expectativas elevadas.
O streaming ainda facilita a descoberta de produções que tiveram uma passagem discreta pelos cinemas. Ao entrar em destaque na página inicial e aparecer no Top 10, um filme pode alcançar milhões de pessoas que não acompanharam seu lançamento original.
No caso de Mickey 17, a mistura de ficção científica, comédia sombria e crítica social também ajuda a diferenciá-lo das aventuras espaciais tradicionais. O longa não depende apenas de batalhas ou efeitos visuais para construir sua história.
Por que o filme decepcionou nas bilheterias?
Mickey 17 arrecadou aproximadamente US$ 133,5 milhões mundialmente, de acordo com os dados consolidados pelo Box Office Mojo. Desse valor, cerca de US$ 46,1 milhões vieram dos Estados Unidos e do Canadá, enquanto US$ 87,4 milhões foram obtidos em outros mercados.
O resultado pode parecer alto isoladamente. Entretanto, o orçamento de produção foi estimado em US$ 118 milhões, sem incluir todos os gastos relacionados a publicidade e distribuição.
A bilheteria bruta também não é inteiramente repassada ao estúdio. Parte da arrecadação permanece com as redes de cinema, e a divisão varia conforme o país, o contrato e o período de exibição.
Isso significa que um filme de US$ 118 milhões precisa arrecadar consideravelmente mais do que esse valor para se pagar. Reportagens publicadas na época do lançamento indicaram que Mickey 17 precisaria se aproximar de uma faixa entre US$ 240 milhões e US$ 300 milhões para alcançar o equilíbrio financeiro.
A produção, portanto, ficou longe do desempenho necessário. Estimativas divulgadas pela imprensa especializada apontaram que a Warner Bros. poderia registrar perdas entre US$ 75 milhões e US$ 80 milhões durante a exploração nos cinemas.
Mesmo assim, chamar o longa simplesmente de fracasso pode esconder parte da história. A obra recebeu avaliações majoritariamente positivas e agora encontra no streaming uma audiência que não conseguiu alcançar durante sua exibição cinematográfica.
A atuação de Robert Pattinson é um dos destaques
Robert Pattinson precisa interpretar mais de uma versão de Mickey, e esse é um dos elementos mais interessantes do filme. Embora compartilhem as mesmas lembranças, Mickey 17 e Mickey 18 apresentam personalidades bastante diferentes.
Mickey 17 é inseguro, resignado e parece ter aceitado o tratamento desumano imposto pela expedição. Ele acumulou experiências traumáticas e se acostumou a morrer para que outras pessoas não precisem correr riscos.
Mickey 18 surge mais agressivo, impulsivo e disposto a reagir. O contraste permite que Pattinson altere voz, postura corporal e comportamento, ajudando o público a identificar cada versão mesmo quando os dois aparecem juntos.
A atuação também reforça uma pergunta importante levantada pelo roteiro: se duas cópias possuem as mesmas memórias, ambas devem ser consideradas a mesma pessoa ou são indivíduos diferentes a partir do momento em que passam a viver experiências próprias?
O elenco reúne outros nomes conhecidos
Além de Pattinson, Mickey 17 conta com Naomi Ackie como Nasha, integrante da expedição e companheira do protagonista. A personagem tem participação decisiva quando a duplicação começa a ameaçar a vida das duas versões.
Steven Yeun interpreta Timo, antigo amigo de Mickey. O ator é conhecido por produções como The Walking Dead, Minari: Em Busca da Felicidade e Treta.
Mark Ruffalo vive Kenneth Marshall, líder da expedição e figura central na estrutura de poder da colônia. O personagem combina autoritarismo, vaidade e incompetência, funcionando como uma caricatura de líderes que utilizam discursos grandiosos para justificar decisões cruéis.
Toni Collette interpreta Ylfa, esposa de Marshall e participante ativa de seu projeto político. O elenco ainda inclui Patsy Ferran, Anamaria Vartolomei, Cameron Britton e Daniel Henshall.
A ficção científica esconde uma crítica ao trabalho descartável
A tecnologia de clonagem é o ponto de partida da trama, mas não representa o verdadeiro centro de Mickey 17. O filme usa essa invenção para discutir o valor atribuído à vida de quem ocupa posições vulneráveis.
Como pode ser reimpresso, Mickey deixa de ser tratado como uma pessoa. Para os comandantes da missão, ele se torna uma ferramenta que pode ser sacrificada, substituída e enviada novamente ao trabalho.
A situação exagerada encontra paralelos no mundo real. O personagem representa trabalhadores submetidos a riscos, abusos e condições desumanas porque são considerados facilmente substituíveis por empresas ou governos.
Essa abordagem é recorrente na obra de Bong Joon Ho. Em Expresso do Amanhã, o diretor utilizou um trem dividido por classes para discutir desigualdade. Em Okja, abordou exploração animal e interesses corporativos. Já Parasita examinou as diferenças econômicas dentro de uma mesma cidade.
Em Mickey 17, a crítica aparece em meio a cenas violentas, situações absurdas e momentos de humor. O resultado é um filme que pode divertir, mas que também provoca incômodo ao mostrar como uma estrutura de poder encontra maneiras de justificar a exploração.
Mickey 17 é baseado em um livro?
O roteiro é baseado no livro Mickey7, escrito por Edward Ashton e publicado originalmente em 2022. O romance apresenta a mesma ideia central de um trabalhador descartável utilizado em uma missão de colonização espacial.
Bong Joon Ho não realizou uma adaptação completamente literal. O diretor modificou personagens, ampliou elementos políticos e transformou o protagonista em uma figura mais ingênua e vulnerável.
A mudança do número presente no título também é significativa. Enquanto o livro acompanha a sétima versão do personagem, o filme começa com Mickey em sua 17ª impressão, reforçando o histórico de mortes e abusos sofridos antes do conflito principal.
Não é necessário ler o livro para compreender a produção da Netflix. A história cinematográfica funciona de forma independente e explica as regras da clonagem durante os primeiros momentos da narrativa.
Como foi a recepção da crítica?
Apesar da decepção comercial, Mickey 17 recebeu avaliações geralmente favoráveis. O Rotten Tomatoes registra 77% de aprovação da crítica especializada, com base em mais de 360 análises.
No Metacritic, o filme alcançou 72 pontos em 100, resultado calculado a partir de 60 críticas. A pontuação indica uma recepção predominantemente positiva, embora distante da unanimidade conquistada por Parasita.
Entre os aspectos mais elogiados estão a atuação de Robert Pattinson, a premissa criativa, o design do planeta Niflheim e a capacidade de Bong Joon Ho de combinar entretenimento com crítica social.
As principais ressalvas envolvem a duração, as mudanças de ritmo e o tom exagerado de alguns personagens. Para parte dos críticos, o filme apresenta ideias demais e nem sempre consegue desenvolvê-las com a mesma profundidade.
Vale a pena assistir ao filme na Netflix?
Mickey 17 vale a pena para quem gosta de ficção científica com humor ácido, personagens excêntricos e questionamentos sociais. É uma produção que utiliza um grande orçamento, mas mantém uma identidade autoral facilmente reconhecível.
O espectador não deve esperar uma aventura espacial convencional. Embora existam criaturas alienígenas, tecnologia futurista e cenas de ação, o foco está na exploração de Mickey e nas disputas políticas dentro da colônia.
A duração de 2 horas e 17 minutos pode exigir mais disposição. O ritmo oscila entre comédia, drama, sátira e suspense, característica que pode surpreender quem busca apenas uma narrativa rápida.
Por outro lado, a atuação de Pattinson, o elenco conhecido e a premissa envolvendo duas versões do mesmo homem sustentam a experiência. O filme também oferece assuntos que continuam interessantes depois dos créditos, especialmente as discussões sobre identidade, poder e dignidade.
A chegada ao terceiro lugar da Netflix em 27 de agosto mostra que a trajetória de uma produção não termina quando ela deixa os cinemas. Ignorado por parte do público durante o lançamento, Mickey 17 encontrou no streaming a oportunidade de ser redescoberto — e finalmente se tornou um dos filmes mais procurados do Brasil.
Imagem: Reprodução Netflix




