Filme A Onda, sucesso na Netflix, é baseado em uma história real?

O filme A Onda, lançado originalmente em 2015 e redescoberto pelo público brasileiro na Netflix, transformou uma paisagem turística da Noruega no cenário de uma catástrofe assustadora. Na história, uma montanha desaba sobre um fiorde e provoca uma onda gigantesca, deixando moradores e turistas com poucos minutos para escapar.
Embora a família apresentada na trama seja fictícia, a ameaça geológica mostrada na produção existe. O longa foi inspirado tanto por desastres que realmente aconteceram na Noruega quanto pelo risco de um novo deslizamento atingir uma região habitada do país.
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A montanha instável retratada em A Onda também não foi inventada para o cinema. Conhecida como Åknes ou Åkerneset, ela é monitorada continuamente pelas autoridades norueguesas devido à possibilidade de uma grande massa de rochas cair no fiorde e gerar ondas destrutivas.
A resposta mais precisa, portanto, é que A Onda não conta uma história real específica, mas constrói sua narrativa a partir de fatos históricos, estudos científicos e de um risco natural reconhecido oficialmente.
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A Onda é baseado em fatos reais?
Os personagens de A Onda não são pessoas reais. O geólogo Kristian Eikjord, interpretado por Kristoffer Joner, assim como sua esposa Idun e os filhos Sondre e Julia, foram criados para conduzir a narrativa.
Também não houve um desastre exatamente igual ao apresentado no filme na cidade de Geiranger. A produção imagina o que poderia acontecer caso uma parte da montanha Åknes desabasse sobre o fiorde norueguês.
Isso significa que o drama familiar, as tentativas de resgate e as decisões tomadas durante a evacuação fazem parte da ficção. A base científica da catástrofe, porém, é real.
A Noruega possui um histórico documentado de grandes deslizamentos de rochas que atingiram lagos ou fiordes. Em alguns casos, o impacto deslocou uma quantidade tão grande de água que produziu ondas capazes de destruir comunidades inteiras.
A ameaça apresentada no longa é levada a sério pela Direção Norueguesa de Recursos Hídricos e Energia, conhecida pela sigla NVE. O órgão é responsável por acompanhar o comportamento de áreas montanhosas instáveis e apoiar medidas de prevenção e evacuação.
Qual desastre real inspirou A Onda?
A referência histórica mais direta para A Onda é a tragédia de Tafjord, ocorrida em 7 de abril de 1934. Naquela madrugada, uma enorme massa de rochas se desprendeu da montanha Langhamaren e caiu no fiorde de Tafjord.
O impacto gerou ondas que avançaram sobre pequenas comunidades localizadas nas margens. Casas, barcos e outras estruturas foram destruídos. Aproximadamente 40 pessoas morreram, fazendo do episódio uma das maiores tragédias naturais da história moderna da Noruega.
O desastre demonstrou que um tsunami não precisa ser provocado por um terremoto no oceano. Em regiões cercadas por montanhas, a queda repentina de milhões de metros cúbicos de rochas pode deslocar a água e gerar ondas de grande altura.
Esse é o princípio apresentado em A Onda. No filme, não é um abalo sísmico submarino que inicia a tragédia, mas o colapso de parte de uma encosta sobre o fiorde.
O diretor Roar Uthaug utilizou o caso de Tafjord como uma das principais referências para construir a catástrofe. O cineasta também aproveitou as características reais de Geiranger, uma comunidade cercada por montanhas íngremes e visitada por milhares de turistas.
Outros deslizamentos já deixaram dezenas de mortos
Tafjord não foi um caso isolado. Outros dois episódios graves aconteceram no lago Lovatnet, na região de Loen, em 1905 e 1936.
No primeiro desastre, uma parte da montanha Ramnefjellet caiu sobre o lago e provocou uma onda destrutiva. Cerca de 60 pessoas morreram.
Uma nova tragédia atingiu a mesma área em 1936. Outra massa de rochas despencou no lago e gerou ondas que destruíram comunidades próximas, provocando mais de 70 mortes.
Relatórios geológicos noruegueses apontam que os deslizamentos de Loen, em 1905 e 1936, e de Tafjord, em 1934, provocaram juntos 175 mortes. Esses episódios ajudam a explicar por que o monitoramento de encostas instáveis é tratado como uma questão permanente de segurança no país.
A montanha mostrada no filme A Onda realmente pode desabar?
Sim. Åknes é uma extensa área montanhosa instável localizada no lado oeste do Sunnylvsfjord, no município de Stranda. A possibilidade de um grande deslizamento na região é estudada há décadas.
O risco começou a receber maior atenção a partir dos anos 1960. Em 1989, especialistas iniciaram trabalhos sistemáticos para avaliar os possíveis cenários de ruptura e as consequências para as localidades situadas ao longo do sistema de fiordes.
Em 2026, a NVE atualizou os cenários oficiais relacionados à montanha. Os estudos passaram a considerar quatro possibilidades, desde uma ruptura menor e mais superficial até o colapso de toda a área instável.
Os volumes estimados variam de aproximadamente 2,4 milhões a 31 milhões de metros cúbicos de rochas. O maior cenário é considerado muito menos provável, mas serve para compreender a dimensão máxima da ameaça.
Segundo a avaliação atualizada da NVE, a probabilidade anual combinada de ocorrer algum dos cenários estudados é de aproximadamente uma em 60. Isso não significa que o deslizamento acontecerá necessariamente nos próximos 60 anos.
A estimativa representa uma probabilidade estatística anual. Também não permite marcar uma data para o evento. Por esse motivo, os responsáveis evitam previsões categóricas e concentram os esforços em detectar alterações no comportamento da montanha.
Como Åknes é monitorada?
A área permanece sob acompanhamento contínuo. As autoridades utilizam diferentes equipamentos para identificar movimentações na superfície e no interior da montanha.
Entre os recursos empregados estão aparelhos de GPS, lasers, extensômetros, refletores, radares por satélite, instrumentos instalados em perfurações profundas e estações meteorológicas.
A combinação dessas tecnologias permite comparar dados independentes. Caso a velocidade de movimentação aumente ou surjam outros sinais de instabilidade, o nível de alerta pode ser elevado.
O monitoramento também considera fatores como precipitação, derretimento de neve e presença de água nas rachaduras. A água pode alterar a pressão interna e contribuir para a movimentação das rochas.
As informações são analisadas para que as autoridades possam iniciar uma evacuação antes do colapso. Esse é um ponto importante em relação ao filme: o objetivo real não é esperar a montanha cair para somente então emitir o alerta.
Os moradores teriam apenas dez minutos para fugir?
Em A Onda, o alarme dispara pouco antes do deslizamento e a população de Geiranger recebe cerca de dez minutos para alcançar uma área elevada. Esse prazo curto aumenta a tensão e transforma a evacuação em uma corrida contra o tempo.
A ideia não é totalmente inventada. Uma onda causada pela queda de rochas em um fiorde pode se deslocar rapidamente, especialmente quando a comunidade atingida está próxima do local do deslizamento.
Entretanto, o tempo real de chegada dependeria do ponto de ruptura, do volume de rochas, da velocidade do material, do formato do fiorde e da localização de cada comunidade. Não existe um único prazo válido para todas as áreas ameaçadas.
Os modelos mais recentes indicam que um grande deslizamento poderia produzir ondas com efeitos diferentes ao longo do Storfjord. Algumas localidades poderiam ser atingidas rapidamente, enquanto outras teriam um intervalo maior para iniciar procedimentos de emergência.
Na prática, o sistema de monitoramento procura reconhecer sinais de aceleração com antecedência suficiente para retirar moradores e turistas das zonas de risco. O cenário de fuga mostrado no longa representa a situação mais dramática, na qual o alerta decisivo chega quando o colapso já está em andamento.
O tamanho da onda mostrado no filme é possível?
A produção apresenta uma onda de aproximadamente 76 metros. Embora pareça um exagero típico de filmes-catástrofe, estudos realizados na região consideram que ondas de dezenas de metros podem ser produzidas em determinados cenários.
Estimativas divulgadas anteriormente pela NVE apontaram que Geiranger e Hellesylt poderiam enfrentar ondas entre 30 e 85 metros, dependendo do tamanho e das características do deslizamento.
Isso não significa que uma parede uniforme de água com essa altura avançaria por toda a região. A elevação e o alcance variariam conforme a profundidade, a distância do ponto de impacto e o formato das margens.
Uma onda provocada por deslizamento também pode se comportar de maneira diferente de um tsunami oceânico. O impacto inicial tende a ser extremamente violento perto do local onde as rochas entram na água, enquanto a energia se distribui pelo fiorde.
Portanto, a altura apresentada em A Onda está dentro dos cenários já considerados para a região. O filme dramatiza a velocidade e a destruição, mas não cria um fenômeno fisicamente impossível.
O que acontece em A Onda?
A história acompanha Kristian Eikjord, um geólogo que trabalha em uma estação responsável por observar a estabilidade da montanha. Ele está prestes a deixar Geiranger com a família quando percebe alterações preocupantes nos sensores.
Kristian desconfia que os dados não representam uma falha comum nos equipamentos. A situação se agrava quando novas evidências indicam movimentações dentro da montanha.
O protagonista tenta convencer os colegas de que a população está em perigo. Quando o deslizamento finalmente acontece, uma enorme onda avança em direção à cidade e separa a família.
A partir desse momento, o filme combina sobrevivência, resgate e conflitos pessoais. Em vez de concentrar toda a narrativa na destruição, a produção acompanha as escolhas feitas por pessoas comuns diante de uma emergência.
Esse enfoque familiar diferencia A Onda de diversas superproduções norte-americanas do gênero. Os efeitos visuais são importantes, mas o perigo ganha força porque os personagens permanecem vulneráveis.
Por que A Onda voltou a chamar atenção na Netflix?
O interesse atual por A Onda pode ser explicado pela combinação entre suspense acessível, cenário pouco explorado pelo cinema comercial e uma ameaça com fundamento científico.
O longa segue elementos conhecidos dos filmes-catástrofe. Há um especialista que percebe o risco antes dos demais, autoridades receosas em provocar pânico, uma evacuação urgente e uma família separada no pior momento possível.
Ao mesmo tempo, a produção apresenta esses elementos em uma escala mais humana. A maior parte da tensão acontece em estradas, hotéis, abrigos e áreas tomadas pela água, sem transformar os personagens em heróis praticamente invencíveis.
A recepção crítica também foi positiva. A Onda registra 83% de aprovação entre os críticos no Rotten Tomatoes e 65% entre o público, considerando mais de 5 mil avaliações de usuários.
O filme foi escolhido para representar a Noruega na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Internacional, então chamado de Melhor Filme Estrangeiro, na edição de 2016. Apesar de ter sido inscrito oficialmente, não chegou à lista final de indicados.
A produção ainda se destacou comercialmente na Noruega, onde vendeu centenas de milhares de ingressos e terminou 2015 como o maior sucesso local daquele ano.
A Onda tem continuação?
O sucesso deu origem a Terremoto, lançado em 2018. A continuação volta a acompanhar o geólogo Kristian Eikjord e sua família, desta vez diante da possibilidade de um forte terremoto atingir Oslo.
Kristoffer Joner e Ane Dahl Torp retornam aos papéis principais. Roar Uthaug não dirige a sequência, que ficou sob o comando de John Andreas Andersen.
Assim como no primeiro filme, Terremoto utiliza um risco existente como ponto de partida para uma narrativa fictícia. A continuação amplia as consequências emocionais da tragédia vivida pela família e mostra que Kristian não conseguiu simplesmente retomar a vida depois do tsunami.
Afinal, quanto de A Onda é realidade e quanto é ficção?
A família Eikjord, o momento exato do deslizamento e as situações de sobrevivência foram criados para o cinema. A Onda, portanto, não reconstitui a trajetória de vítimas específicas nem adapta um único relato pessoal.
Por outro lado, a montanha instável existe, o risco de deslizamento é reconhecido pelas autoridades e a Noruega já sofreu tragédias semelhantes. As ondas geradas em Tafjord e Loen comprovaram que esse tipo de catástrofe pode destruir comunidades e provocar muitas mortes.
Os equipamentos de monitoramento, os planos de alerta e a necessidade de evacuar áreas baixas também fazem parte da realidade local. Até mesmo a altura impressionante da onda encontra correspondência em cenários analisados por especialistas.
É justamente essa proximidade com fatos concretos que torna A Onda tão inquietante. O filme não mostra algo que aconteceu exatamente daquela maneira, mas imagina as consequências de uma ameaça real que continua sendo estudada e monitorada na Noruega.
Imagem: Reprodução Netflix




