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Escrita feminista | Bienal 2019 traz debate sobre o tema a partir de Virginia Woolf

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Escrita feminista | Bienal 2019 traz o tema a partir de Virginia Woolf

 

Escrita feminista ganhou destaque na Bienal 2019 com debate intitulado “feminismos”

 

Certamente, a Bienal do livro é de grande importância para os amantes da leitura. Afinal, o evento reúne livros que vão desde o segmento nerd, até o gospel. E ainda passam por todo tipo de assunto que se possa imaginar. Dessa forma, qualquer pessoa que ame leitura é bem-vinda à Bienal 2019. Entretanto, além dos livros em si, a Bienal é conhecida por trazer debates interessantes e socialmente relevantes. Entre eles, ressalta-se nessa leitura, o Debate intitulado “Feminismos” (sim, no plural). A saber, o momento mediado pela jornalista Renata Izaal trouxe a escrita feminista como tema e foi um dos destaques do dia. Compuseram a mesa as professoras universitárias Giovana Xavier e Heloísa Buarque de Hollanda, além da escritora e poetisa Maria Isabel Iorio e a atriz Mariana Ximenes.

 

A atriz Mariana Ximenes, a jornalista Renata Izaal, a poetisa Maria Isabel Iorio e as professoras universitárias Heloísa Buarque de Hollanda e Giovana Xavier no debate “Feminismos” na Bienal do Livro 2019

 

O “Anjo do Lar” e o ponto de partida do debate sobre escrita feminista

 

Virginia Woolf viveu de 1882 a 1941, iniciando sua carreira de escritora em 1915. Sem dúvidas, trata-se de um período de grande efervescência na luta por direitos femininos. Primeiro, o movimento sufragista, que se iniciara na França aproximadamente em 1983, se espalhava pelo mundo. Segundo, houve um aumento significativo no ingresso feminino no mercado de trabalho, principalmente com a Primeira Guerra Mundial. Como é sabido, o acesso da mulher ao mercado de trabalho foi fundamental na busca pela independência, mas não foi suficiente. As condições de trabalho eram piores para elas e ainda iniciou-se a tripla jornada: mãe, dona de casa, trabalhadora. Isso sem perder as exigências sociais da época: seja pura, seja abnegada, não tenha opiniões! Como seria uma escrita feminista nesse contexto?

 

ienal 2019 trouxe importante debate sobre escrita feminista partindo da performance feita por Mariana Ximenes de "O Anjo do Lar" de Virginia Woolf. Veja!

Virginia Woolf

 

Daí a importância de “O Anjo do Lar” de Virginia Woolf. O texto encenado por Mariana Ximenes traz uma escrita feminista sobre como a própria a mulher que escreve deve ser. A saber, a escritora inglesa ressalta o fato de que a mulher que continua sendo o anjo do lar não pode escrever de modo eficaz, uma vez que, para obter o título, a mesma não pode ter opiniões próprias! Em resumo, o anjo do lar deve morrer para que a mulher escritora nasça. Assim, foi bastante coerente a escolha de escritoras na composição da mesa.

 

Do Feminismo aos Feminismos e as especificações das demandas atuais

 

A reflexão e a busca pelo direito feminino antecede a própria Virginia Woolf.  Em 1792, Mary Wollstonecraft escreveu sua literatura feminista “Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher”. Antes de mais nada, essa obra tem um valor enorme, como um dos pontos de partida do que seria o feminismo. Nela a autora rebate a concepção hegemônica na sociedade de sua época que definia o homem como superior à mulher. Mary, por sua vez, traz a proposição de que não há por natureza uma inferioridade intelectual da mulher em relação ao homem. Ao contrário, trata-se de uma questão social, já que à mulher era negado a acesso à escolaridade e à educação, exceto para tarefas domésticas.

 

Mary Wollstonecraft

 

Entretanto, há detalhes importantes a se acrescentar sobre o contexto em que Mary viveu. Embora o homem branco fosse considerado superior à mulher branca, ambos eram considerados humanos. Ao negro, com a escravidão vigente no mundo, essa definição era negada. O feminismo original não inclui a mulher negra, afinal, ela sequer era considerada humana. Além do mais, praticamente todas as escritoras da primeira onda feminista eram membros da elite europeia. Existe, sem dúvidas, uma importância enorme nessa primeira onda, mas, assim como a segunda, ela é branca e elitista. Portanto, não atinge a todas as mulheres. Certamente, a escrita feminista da época refletia isso.

Terceira Onda do Feminismo

 

A partir da Terceira Onda Feminista, iniciada nos anos 90, as especificidades das mulheres começaram a ser consideradas. Uma vez que o Feminismo é a luta pela igualdade de gênero, é necessário considerar as reais condições de cada mulher de exercer essa igualdade. Em decorrência disso, o feminismo tornou-se plural. Por este motivo, o nome “Feminismos” dado ao debate e a presença de representantes de vários segmentos. Giovana Xavier trouxe o Feminismo Negro, enquanto Maria Isabel Iorio veio com a visibilidade lésbica e Heloísa Buarque de Hollanda falou sobre a diversidade dos feminismos. Hoje essa diversidade é mostrada na literatura feminina.

Partindo da frase “uma mulher deve ter dinheiro e um teto todo seu, se quiser escrever ficção.”  dita pela própria Virgínia Woolf, citou-se Carolina Maria de Jesus, brasileira que não tinha nenhum recurso, mas escreveu com primor seu Quarto do Despejo. Assim, a literatura feminina vai além da ideia da escritora inglesa. Vale ressaltar, ainda, o pioneirismo de Carolina, pois ousou escrever em um momento que nem mesmo o feminismo contemplava suas questões.

 

Carolina de Jesus

 

Quarta Onda Feminista e destaques no debate Feminismos

 

Outro ponto que veio à tona foi a Quarta Onda Feminista, que começou em 2012. Essa onda mantém as especificidades de cada subgênero feminista. Entretanto, traz novas pautas que mais uma vez une todas as mulheres. A saber, a luta contra o assédio e a violência de gênero. O uso do corpo como resistência e instrumento de luta também foi um tema presente no debate. Esse tema mais uma vez ressaltou diferenças históricas entre brancas, que eram obrigadas a serem puras e negras que eram hipersexualizadas. Mesmo o conceito de mulher foi discutido, pois, além do fator biológico, existe a identidade de gênero e as mulheres trans, ignoradas pelas radfems.

Ainda sobre diferença entre mulheres brancas e pretas, observou que foi um tema bem presente. Entretanto, gerou um momento pelêmico, pois a professora Heloísa Buarque de Hollanda sugeriu a criação de um “feminismo branco” para que mulheres brancas decidam o que fazer com os próprios privilégios. Tal fala não repercutiu bem e a plateia reagiu. Afinal o feminismo já era essencialmente branco em sua criação, assim como a escrita feminista. Além do mais, os privilégios precisam ser minimizados, preferencialmente erradicados.

Apesar do momento, um tanto polêmico, o debate foi super enriquecedor. É preciso que o feminismo seja assunto recorrente em todos os espaços. A reflexão e o diálogo são essenciais para que um dia a igualdade se torne real.

 

Bienal 2019 trouxe importante debate sobre escrita feminista partindo da performance feita por Mariana Ximenes de "O Anjo do Lar" de Virginia Woolf. Veja!

 

A Bienal 2019 traz muito mais novidades para você! Confira a programação clicando aqui. E não se esqueça que a Trecobox estará com você durante os dias de evento trazendo conteúdos muito legais. Portanto, fique de olho! E você? Tem hábito de ler literatura feminina e feminista? Deixe seu comentário e até a próxima!

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Uma pessoa que tenta harmonizar as várias coisas que ama. Formada em literaturas, a leitura é a paixão que logo salta. Em paralelo aos clássicos literários, veio o gosto pelo mundo dos super-heróis, mais especificamente das heroínas. Louca por músicas das décadas de 70 e 80 (obrigada, Guardiões da Galáxia!). Adora produzir e revisar textos. Protagonismo feminino é seu assunto preferido. No meio disso tudo, ainda é fã de maquiagem e está "engatinhando" na makeup artística para, no futuro, fazer cosplay.

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