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Guillermo Del Toro, o ‘Monstro’ do cinema

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Guillermo Del Toro, o 'Monstro' do cinema

 

Um cineasta que representa tudo o que a comunidade geek/nerd sonha em realizar

 

Cara gente nerd… Todo geek/nerd já se pegou uma noite deitado olhando para o teto do quarto pensando em histórias que escreveria, sendo vendidas em livros e até mesmo produzidas no cinema. Imaginando o elenco, as cenas e os planos de cenas.

Alguns acabaram levando esses pensamentos tão longe e trabalharam tanto neles que conquistaram muito mais que desejos, acabaram construindo sua vida baseada nesse sonho, se tornando as pessoas que fazem o mundo do cinema hoje se aproximar dos geeks/nerds que estão na frente das TV, telões, livros e vídeo games. Já que a identificação é imediata, o sentimento de representatividade torna o vínculo importante, mesmo sabendo que talvez suas histórias continuem apenas em sua cabeça, e não passem de delírios noturnos em momentos de insônia, saber que alguém conseguiu passar a “fronteira” e crescer com isso dá a todo um grupo inspiração para continuar fazendo o que ama. Porque ama e isso basta.

 

Guillermo Del Toro, o 'Monstro' do cinema

 

Guillermo Del Toro é um desbravador de uma nova classe de “Diretores Nerds”, que assume esse papel e não tem vergonha de falar abertamente sobre o amor a monstros, sem medo de ser julgado como imaturo. A verdade é que Del Toro aprendeu a cultivar seu amor “infantil” durante toda sua vida e isso deu a ele sustentabilidade para seguir sua vida profissional.

Se o diretor tivesse largado o caderno com rabiscos e histórias fantásticas na primeira vez que foi reprimido, talvez nunca tivesse se tornado quem é hoje e isso seria um erro enorme.

O garoto gordinho que amava ver filmes de monstros na TV da avó decidiu que fazer monstros era o que queria para a sua vida. Mas, com o passar do tempo, percebendo que o caminho da ciência seria uma vertente mais demorada de alcançar seus objetivos. Optou pelo cinema, trabalhando por anos na área de maquiagem e efeitos de produções mexicanas, convivendo e aprendendo ao lado de nomes como Dick Smith.

Com o tempo, passou a construir seu portfolio na indústria ligando a cronologia da sua vida diretamente com a dos filmes que defendia de alguma maneira.

 

2001 – A ESPINHA DO DIABO

Antes de A Espinha do Diabo (El Espinazo Del Diablo, em espanhol, com a língua no céu da boca fica muito mais bonito), Del Toro tomou a frente de outras produções, mas foi o roteiro e a direção de um suspense ambientado durante a Guerra Civil Espanhola que ele começou a “namorar” com a crítica internacional, servindo até mesmo de matéria prima para futuras ideias em O Labirinto do Fauno. Em meio a uma indústria totalmente mecanizada e direcionada ao lucro, Del Toro trouxe um pouco de conceito, chamando a atenção de quem deveria e tornando o “gordinho de olhos arregalados” em alguém interessante de se ouvir as ideias.

 

 

2002 – BLADE 2

A primeira oportunidade realmente válida dada ao diretor foi em Blade 2. Uma franquia que estava totalmente perdida e desacreditada. O desafio de Del Toro foi pegar um barco furado andando e dar sentido a ele. Essa foi a primeira vez que precisou lidar com a falta de interesse de uma indústria desmotivada e encarar produtores que não entendiam nada sobre processo criativo.

Blade conseguiu se erguer e ter um futuro promissor graças à maestria do diretor em dar personalidade à franquia. Nesse filme é possível ver o empenho de Del Toro em criar um portfolio para mostrar à indústria quem ele é.

 

 

2004 – HELLBOY

Se Guillermo Del Toro já havia se provado como diretor, o ano de 2004 era o momento de se mostrar como roteirista. Assim lhe deram um tema no qual era aficionado e liberdade para desenvolver uma trama em um personagem que não era tão conhecido, em meio a uma época pré-heróis no cinema, onde vender esse universo para um público ignorante era muito difícil. Mesmo tendo alcançado o sucesso com Blade ainda existiam dúvidas quanto à competência de Del Toro. Por isso era testado constantemente sua maneira de reviver coisas que ninguém acreditava.

 

 

2006 – O LABIRINTO DO FAUNO

Aqui chegamos à grande obra prima de Guillermo Del Toro. Uma obra que desbancou produções americanas e engrandeceu o cinema espanhol e mexicano, levando para casa prêmios como Melhor Direção de Arte e Melhor Filme Estrangeiro em muitas premiações de destaque (perdendo apenas no Oscar para Das Leben der Anderen, injustamente). Essa produção serviu para definir quem era Del Toro e sua importância para a indústria.

O Labirinto do Fauno surgiu em um momento onde a indústria do cinema de Hollywood estava desacreditada, cansada, mergulhada em um limbo sem criatividade. Época onde produtores mesquinhos e sem personalidade determinavam as regras. Faltava originalidade nos temas abordados e o Oscar havia se tornado um reduto de mesmices. O filme do até então principiante Del Toro deu voz aos pequenos, que acreditavam em um cinema bem feito, e deu a eles a oportunidade de crescer e mostrar seu trabalho (Alfonso Cuarón Orozco também namorava a indústria nessa época).

 

 

2008 – HELLBOY 2

A continuação de Hellboy foi o primeiro problema numa sequência de anos infelizes de Del Toro. Esse foi o segundo filme (depois de O Labirinto do Fauno) que o diretor atuou nas três áreas (roteiro, direção e produção). Talvez o problema tenha sido esse.

Na minha singela opinião, esse filme é lindo, perfeito e completo. Gosto muito mais que o primeiro. Mas acontece que, entre o primeiro Hellboy e Hellboy 2, o universo dos quadrinhos começou a namorar com a indústria do cinema mais intensamente. Os fãs passaram a exigir fidelidade naquilo que era adaptado. A autoria e criatividade do diretor em desenvolver o roteiro não foi bem aceita entre os fãs “xiitas” do herói e a baixa popularidade do personagem somada à desaprovação dos que conheciam resultou na estagnação da franquia e início de uma época infeliz na vida de Del Toro.

 

 

Obs: De 2009 a 2012 Del Toro não se envolveu mais como diretor em títulos, assinando apenas como produtor ou roteirista de produções como Splice – A Nova Espécie, Biutiful, Los Ojos de Julia, Não Tenha Medo do Escuro, Kung Fu Panda 2, O Gato de Botas e A Origem dos Guardiões.

 

2012 – O HOBBIT

Esse talvez tenha sido o pior momento na carreira do diretor. Seu nome estar nos créditos como roteirista nada mais foi que uma mera burocracia preventiva dos estudos envolvidos para evitar problemas futuros. Del Toro foi contratado pela MGM (dona dos direitos autorais de O Hobbit), para encabeçar a produção (já que Peter Jackson disse que nunca abandonaria a New Line Cinema, no caso dona dos direitos de O Senhor dos Anéis). Acontece que a MGM não tinha dinheiro para financiar a produção e por isso ficou por anos enrolando Del Toro, que ficou recluso em seu escritório desenhando cenas e reescrevendo roteiro (meu sonho ter os manuscritos disso). No entanto, em meados de 2010, em uma ação estratégica e por debaixo dos panos, a MGM e a New Line fizeram as pazes, acertaram os “números”, Del Toro “pediu” demissão e Peter Jackson assumiu a frente de tudo (pasmem, digno de novela mexicana).

Del Toro no melhor estilo “vida que segue”, colocou seu “rabinho entre as pernas”, pegou seus rascunhos e ideias, arrumou suas coisas e foi embora ( nessa época Peter Jackson afirmou que não usaria as ideias de Del Toro, mas ele está lá).

 

2013 – CÍRCULO DE FOGO (PACIFIC RIM)

Sabe quando você está em deprê, acabado, depois de um pé na bunda, e seus amigos lhe arrastam para uma das melhores festas de sua vida? Círculo de Fogo (Pacific Rim) foi isso na trajetória de Guillermo Del Toro, a garota certa, na hora certa, dizendo as coisas certas. Depois da traição da MGM o diretor voltou para casa, viu alguns filmes românticos, comeu sorvete deitado na cama enquanto chorava com propaganda de margarina e quando achava que não havia mais esperança para seu futuro no cinema, a Legendary Pictures lhe apresentou à seguinte proposta: “monstros gigantes e robôs gigantes, lutando e destruindo cidades”, com total liberdade criativa e desenvolvimento.

Círculo de Fogo foi um prato cheio para curar a “dor de cotovelo”. Enquanto as pessoas tentavam mexer em sua dor falando de O Hobbit, o diretor desconversava com um sorriso promovendo seu novo título.

A reviravolta de Del Toro foi tão esperada e tão aprovada que o filme se tornou um marco na nova fase de sua carreira. Ficando visível à Hollywood que o diretor trabalha melhor quando está totalmente apaixonado pelo o que faz.

 

 

2015 – A COLINA ESCARLATE

A Colina Escarlate talvez tenha sido um pequeno escorregão na trajetória recente do diretor. O filme ao qual foi convidado apenas para dirigir peca absurdamente em desenvolvimento de roteiro. E mesmo que Del Toro assine a obra apenas como diretor a reputação da falta de primor reflete totalmente na sua imagem. Já que muitos ao deparar-se com o desfecho da obra acabaram se questionando “de que vale uma produção espetacular, e cenários exuberantes se o roteiro é pobre?“.

Talvez com esse título, Guillermo Del Toro tenha aprendido que seu nome à frente de qualquer coisa tem um peso maior do que imaginava. Se quando dirigiu Blade havia uma surpresa por parte dos espectadores em por personalidade à franquia, em A Colina Escarlate a falta de envolvimento do começo ao fim decepcionou a crítica.

 

 

2017 – A FORMA DA ÁGUA

A produção marca o renascimento de Guillermo Del Toro diante do cinema. Após percalços intensos ao longo do caminho o diretor em fim aprendeu sua importância e o peso em tudo que toca. Por isso é visível o primor no desenvolvimento desse filme. O título se tornou queridinho entre a crítica desde sua primeira exibição, já que nele o diretor fala com maestria aquilo que sabe melhor “monstros e pessoas”. Após aprender a encantar a indústria em O Labirinto do Fauno, o sensível A Forma da Água chega para o meio com um gosto mais brando. Não existe susto, já que Del Toro está fazendo “deltorismo”, assim como Tarantino é “tarantinesco”.

É visível a segurança e a criação de um filme sem receio, com personalidade, que tinha intenção de atingir um nicho de mercado, mas que se tornou global pela pureza na intenção da mensagem.

 

 

Talvez o que Hollywood tenha aprendido com Guillermo Del Toro é que, mesmo com um público acostumado com produtos fáceis, em algum momento existirá necessidade de renovação. É preciso estar de olho nos novos empreendedores que surgem e que tentam mostrar sua voz.

O que Del Toro aprendeu com a indústria foi que personalidade define carreira. Mesmo em um mundo onde a pobreza de criatividade às vezes não é um requisito para patrocinar produções. Os que se esforçam e mostram amor pelo que faz sempre conseguiram destaque e abertura.

Guillermo Del Toro precisou se desconstruir, refletir, se afastar e se reinventar a todo momento. No entanto, o que determinou seu futuro foram seus princípios e seus amores.

Ver alguém assim recebendo o Oscar dá a todos os geeks e nerds respiro e um sentido de representatividade em uma proporção que, mesmo que nunca possamos passar por tal experiência desenvolvendo nossos projetos, sentimos a motivação necessária para continuar correndo atrás do que amamos.

 

Parabéns, Guillermo Del Toro!

 

Um apaixonado por livros, Lannister de nascença, sonserino por seleção. Um desbravador sob Terras Nerds. Que adora experiências e ideias, procurando sempre mais. Viciado em séries e filmes. Que vive por escrever e escreve porque/o que vive. Dono do blog @caragentenerd no Instagram.

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